Bebedeira digital
Os primeiros vinte e cinco anos do Século XXI são claramente dominados pelas tecnologias digitais. A sociedade atual vive, de momento, mais no mundo digital do que no mundo físico, contexto que cria novas dinâmicas sociais, económicas e políticas.
Esta metamorfose tecnológica no mundo digital desenvolve-se a um ritmo cada vez mais veloz, sendo impulsionada com a inteligência artificial, o machine learning e a internet das coisas, etc., ferramentas que se estão a espraiar em sobre todos os setores da atividade económica, e que impactarão segura e negativamente na maioria dos postos de trabalho, na segurança e na vida humana.
O complexo internético, estritamente ligado ao capitalismo e ao dito comunismo chinês, alimenta apetites fabricados de maneira artificial, ao mesmo tempo que o volume de informações, a sua variedade e velocidade, emanadas do online, disseminam as tecnologias que enquadram as pessoas no interior das suas regras e operações. A maioria das ações, autónomas na era analógica, transformaram-se em comportamentos adaptativos ao sistema.
Por outro lado, o advento da Internet, com todas as aparentes oportunidades de expressão do “eu”, assumida pioneiramente como tecnologia igualitária, transformou-se atualmente em monopólio do conhecimento através do controlo empresarial das redes sociais digitais, a par das ambições das empresas tecnológicas e de alguns Estados. Neste contexto, os sistemas de comunicação que falaciosa e hipocritamente viabilizam o acesso popular ou democrático à informação, acabam por intensificar a desigualdade económica e são instrumentos ou mecanismos de direção que limitam, moldam ou redirecionam o debate público.
Neste sentido, toda a sociedade e sobretudo a infância estão expostas àquilo que Michael Desmurget (2023) designa por “orgia digital”, que significa a utilização de múltiplos écrans digitais (televisão, computadores, tablets, telemóveis, consolas de jogos e redes sociais), instrumentos aproveitados, em traços gerais, mais para tempo recreativo do que para formação intelectual e humana dos múltiplos utilizadores. Surgem, neste ambiente ubíquo de “plug and play”, novos problemas, novas preocupações associadas sobretudo à captação da atenção que deram origem a um “novo” ramo da ciência económica, designada por economia da atenção.
Este recente ramo do saber surge como consequência da vulgarização das tecnologias digitais e da fraca capacidade de atenção dos seres humanos, que passou por isso a ser considerada como uma commodity escassa. De forma semelhante, surgem os conceitos de seconf life e metaverso, que expressam a possibilidade de o ser humano ingressar numa espécie de vida paralela como se habitasse outro universo. Aparece ainda, nesta sequência, o projeto avatar digital como mais um fenómeno social-contemporâneo, com aplicabilidades no marketing, na medicina, etc.
À medida que o processo de digitalização avança as utopias digitais transformam-se em distopias digitais, paradoxos e expetativas defraudadas. São termos que apontam cenários futuros ou presentes alternativos, no qual as tecnologias digitalizadas impactam de forma negativa na sociedade, quer ao nível das estruturas sociais, económicas ou políticas. A vertigem digital é tão intensa e materializada em milhares de aplicativos que eleva o espaço virtual a um lugar onde todos podem adquirir tudo sem esforço e saberes profundos, o que representa uma autêntica ilusão.
Outra problemática é a transposição simplista da tecnologia informática (multitasking) para o ser humano. Neste caso, pretende-se que o ser humano simule o computador e não o contrário, saltando, assim, de um assunto para outro, no pressuposto que o cérebro humano revela habilidade e capacidade para o fazer, argumento que é, no entanto, contrariado pelos psicólogos. Tudo isto, determina novos mitos urbanos, ou seja, um conjunto de buzzword e hypes, frequentemente sensacionalistas, que consideram que o novo mundo está a conhecer uma geração diferente, ao mesmo tempo que glorifica acriticamente o génio digital dos geek’s e dos nerd’s.
No entanto, o consumo digital está, segundo o neurocientista francês Michael Desmurget, a prejudicar profundamente o desenvolvimento intelectual e emocional da nossa descendência, ao afirmar serena e convictamente que os écrans recreativos são uma calamidade global plena.
