A Exclusão da Inteligência Artificial no Ensino Superior
O manifesto recentemente divulgado por um conjunto de docentes do ensino superior, defendendo a proibição da inteligência artificial generativa (IA) nos processos de ensino e aprendizagem (diário as beiras | 20-01-2026), constitui um caso exemplar de reação tecnofóbica perante transformações estruturais do ecossistema cognitivo contemporâneo.
A invocação da “humanização do ensino superior” como fundamento para essa exclusão revela uma conceção essencialista da atividade académica, ancorada numa visão estática do conhecimento e numa leitura insuficiente das dinâmicas epistemológicas que caracterizam a era digital.
A caracterização dos estudantes como “cretinos digitais” é particularmente reveladora. Não descreve uma suposta degradação das capacidades cognitivas dos jovens; descreve, antes, a dificuldade de uma parte da academia em reconhecer que as práticas de produção, circulação e validação do conhecimento se encontram em profunda mutação. A história da educação demonstra que cada inovação tecnológica – da escrita à imprensa, da calculadora ao computador – foi inicialmente recebida com suspeita e frequentemente acusada de comprometer competências fundamentais. A IA inscreve-se nessa genealogia de resistências, mas com uma diferença decisiva: a sua ubiquidade e transversalidade tornam inviável qualquer tentativa de exclusão normativa.
A tese segundo a qual a IA “soterraria” métodos tradicionais de estudo assenta num equívoco epistemológico. A IA não substitui o pensamento humano; reconfigura o seu campo de ação. A automatização de tarefas mecânicas – síntese preliminar, organização de informação, verificação formal – não elimina a necessidade de raciocínio crítico, interpretação ou criatividade.
Pelo contrário, desloca o foco da atividade académica para níveis superiores de análise, validação e construção conceptual. A verdadeira ameaça à qualidade do ensino superior não reside na tecnologia, mas na ausência de literacia algorítmica, de metodologias de avaliação adequadas e de estratégias pedagógicas que integrem criticamente estas ferramentas.
A proibição da IA, além de impraticável, é pedagogicamente contraproducente. Os estudantes continuarão a utilizá-la fora do espaço formal de aprendizagem, mas sem orientação ética, sem critérios de qualidade e sem enquadramento metodológico. Tal como sucedeu com a internet ou com os motores de busca, a exclusão institucional não elimina o uso; elimina apenas a possibilidade de o orientar. A universidade, enquanto instituição responsável pela formação crítica, não pode abdicar dessa função reguladora e formativa.
Do ponto de vista científico, a proposta de proibição é ainda mais problemática. A investigação contemporânea – nas ciências naturais, sociais e humanas – depende crescentemente de modelos computacionais, análise de grandes volumes de dados, ferramentas de escrita assistida e sistemas de apoio à decisão. Formar estudantes sem contacto com estas tecnologias equivale a prepará-los para um mundo que já não existe. É condená-los a operar com instrumentos conceptuais e técnicos desfasados das práticas profissionais e científicas atuais.
A defesa da “humanização” do ensino superior exige, pelo contrário, uma integração crítica e responsável da IA. Humanizar significa recentrar o trabalho académico nas dimensões que nenhuma tecnologia substitui: a interpretação, o debate, a ética, a criatividade, a construção de sentido. A IA pode, e deve, libertar tempo e energia para essas tarefas, reduzindo o peso das atividades repetitivas que historicamente têm ocupado uma parte significativa do trabalho docente e discente.
O debate necessário não é, portanto, entre proibir ou permitir, mas entre regular inteligentemente ou ignorar irresponsavelmente. A universidade deve definir usos legítimos, promover transparência na utilização, reformular métodos de avaliação e capacitar docentes e estudantes para uma relação crítica com a tecnologia. A proibição, ao invés de proteger a integridade académica, fragiliza-a.
Em síntese, a exclusão da IA do ensino superior não constitui uma defesa da humanização, mas uma renúncia à missão histórica da universidade: compreender o mundo, antecipar as suas transformações e preparar as gerações futuras para nele agir com competência e responsabilidade. A universidade que proíbe a IA não está a preservar o seu legado; está a comprometer o seu futuro.
