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Por onde andam os alunos que formamos?

07 de novembro de 2026 às 10 h45

Portugal continua a acumular prémios de turismo internacional, mas enfrenta uma crise silenciosa no que respeita a capital humano. Sem retenção de talento, a excelência é uma ilusão. Portugal não pode ambicionar um turismo de excelência sem valorizar quem o torna possível. No passado mês de outubro, o país voltou a ser distinguido nos World Travel Awards como o Melhor Destino da Europa, e o Turismo de Portugal revalidou o título de Melhor Organismo Oficial de Turismo da Europa. São conquistas que enchem de orgulho o país e, em particular, quem integra esta instituição, cujo ecossistema de formação tem moldado gerações de profissionais talentosos.

Por trás dos galardões e dos números recorde, contudo, esconde-se uma contradição inquietante, a crescente escassez de mão-de-obra qualificada. A pergunta impõe-se com urgência, por onde andam os profissionais que formamos? O setor do ensino enfrenta desde logo o seu próprio desafio, a atração de alunos. Embora o ano letivo de 2026/2027 tenha registado um ligeiro incremento nas matrículas da rede de 12 escolas do Turismo de Portugal, esse crescimento fica muito aquém das necessidades reais da economia nacional. Mas a responsabilidade também passa por nós, instituições de ensino. As escolas têm o dever contínuo de adaptar os seus currículos, alinhando a componente técnica com o desenvolvimento de competências pessoais e emocionais, de modo a preparar melhor os estudantes para a resiliência e a exigência reais que encontrarão no mercado de trabalho.

O paradoxo adensa-se na empregabilidade. Cerca de 90% dos diplomados encontram trabalho ou prosseguem estudos nos seis meses pós-conclusão do curso. A formação abre portas e responde ao mercado. Onde reside, então, a falha?

Coimbra é um caso de estudo exemplar desta aposta na qualificação. A cidade oferece uma cadeia formativa completa, do ensino técnico-profissional na Escola de Hotelaria e Turismo às licenciaturas e mestrados da Universidade de Coimbra onde se incluem programas pioneiros em Gastronomia, Turismo Gastronómico e doutoramentos em Patrimónios Alimentares. Existe um ecossistema sólido, capaz de preparar especialistas e investigadores de topo.

O verdadeiro desafio não está na formação, mas na retenção. Formar exige investimento, tempo e recursos públicos e privados. No entanto, uma parcela expressiva de jovens abandona a hotelaria e a restauração ao fim de poucos anos em busca de previsibilidade, estabilidade e equilíbrio pessoal. Será apenas uma questão salarial? A remuneração é determinante, mas não esgota o problema.

A organização do trabalho exige uma reflexão profunda. Horários repartidos, jornadas intermináveis, trabalho sistemático aos fins-de-semana e a dificuldade em conciliar a vida profissional e familiar tornam vocações apaixonantes em carreiras insustentáveis a longo prazo. Reconhecem-se, naturalmente, os complexos desafios operacionais e a margem de manobra limitada das PMEs do setor, fustigadas pela sazonalidade e pelos custos de contexto. Ainda assim, a modernização da gestão do trabalho é hoje inevitável para a própria sobrevivência dos negócios.

A adoção de horários contínuos, sempre que viável, escalas equilibradas, planos claros de progressão e a efetiva valorização das qualificações são medidas urgentes. Ganham os trabalhadores em qualidade de vida, ganham as empresas em produtividade e ganha o país na qualidade do serviço. Portugal não pode continuar a celebrar os prémios do turismo sem cuidar das pessoas que lhes dão corpo e alma. As distinções internacionais premiam marcas e destinos a experiência real é entregue por pessoas.

Mais do que formar talentos, o setor precisa de criar razões sólidas para que eles fiquem. Não haverá turismo de excelência sem profissionais valorizados, motivados e com perspetiva de futuro.

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