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Ver os Budas em Bamyan (parte 2) Afeganistão-2024

23 de outubro de 2026 às 14 h17

A noção de distância-tempo que temos não pode ser aplicada a países como o Afeganistão. Um percurso de menos de 200 quilómetros que por cá, regra geral, é realizado em cerca de duas horas, a distância que separava de Cabul de Bamyan, que era idêntica, exigiu mais de cinco horas para concretizar. A par de estradas que muitas vezes desconhecem o que é o asfalto, há que contar com os vários controlos militares de milícias talibãs. Contas feitas, já era de noite quando cheguei ao destino.

A fome apertava, e salivava já a olhar pelo vidro do carro ao passar por ruas desertas na esperança de encontrar algum restaurante aberto. Bamyan estava a afirmar-se como a ex-lybris do tímido turismo afegão até que, em maio desse ano, três turistas espanholas foram metralhadas por um desconhecido que, entretanto, desapareceu no meio dos caos que se gerou. A partir daí, o governo impôs o recolher obrigatório ao fim da tarde, saldando-se num duplo rude golpe para todos os que queriam acreditar que era desta que a sua vida iria finalmente melhorar. Naveed, o meu amigo afegão, lá conseguiu encontrar um espaço para nos matar a fome à custa de um frango assado com arroz. Imperava um silêncio quase constrangedor, sobrecarregado pela escuridão que a falta de energia ditava sobre boa parte do centro urbano.

O Hotel onde fiquei deve ter recebido dignatários estrangeiros aquando da presença norte-americana. As suas instalações, em fase decadente pela falta de manutenção, davam a entender que já vivera melhores dias há uma década atrás, não obstante o esforço dos seus funcionários para lhe conferir um aspeto digno. Um duche de água quente para relaxar um corpo dorido de tantas horas de viagem veio mesmo a calhar. A cama era confortável, e sabia que não podia ser muito exigente no que toca à limpeza ou higiene. Quem anda por estes lados na Ásia sabe disso.

Como o alojamento estava quase às moscas, sinal dos novos tempos que aqui se vivem, consegui ficar num quarto com vista para o vale que dá o nome a esta cidade. Apesar de não haver muita luz, aproveitei para ir até à janela e espreitar para ver se haveria algo no horizonte que valesse a pena. Surpresa minha quando, por detrás de uma fila de árvores que dançavam ao ritmo da brisa, consegui ver a tão famosa montanha que albergava os Budas.
Era mesmo para ali que iria na manhã do dia seguinte. (continua)

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