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Bruxelas está a arder. Outra vez.

22 de outubro de 2026 às 10 h15

“Já viste o que está a acontecer aí? Não vás ao centro! Aliás, o melhor é não saíres de casa…” O telefonema da minha mãe foi mesmo assim. Nas mensagens, uma imagem da RTP com um jornalista ao lado de um carro com todas as janelas partidas e um querido “tem cuidado”, recebido da minha irmã. Aliás, a avaliar pela quantidade de mensagens, Bruxelas estaria à beira do apocalipse.

Na realidade, estava à beira de mais uma manifestação. Apenas um dia normal para nós. Mas, de tempos a tempos, os telejornais portugueses lembram-se de que existe uma cidade chamada Bruxelas, e meia dúzia de imagens de polícias, multidões e trânsito cortado bastam para instalar o estado de alerta entre família e amigos. Suspeito que seja sobretudo quando escasseiam as notícias em Portugal.

Entretanto, quem cá vive inquieta-se por não saber se aquela loja estará aberta ou se os transportes públicos estão interrompidos em algum local. Afinal, uma manifestação em Bruxelas não é propriamente um acontecimento inédito. Nesse dia, por acaso, estava perto do centro. Ainda vi estradas bloqueadas, muitos polícias bem equipados e bombeiros a apagar uma pilha de trotinetes e bicicletas a arder. Perguntei a uma agente da polícia: «Acha que posso passar pela Gare Centrale ou é melhor ir à volta?» Respondeu-me com um sorriso: «Já está mais calmo, mas, se puder evitar, é melhor ir à volta.»

Desta vez, foram os estudantes que saíram à rua para protestar contra as reformas no ensino e o aumento dos custos. Têm razões para se manifestar, e a educação merece ser defendida (óbvio!). O que já me custa mais a compreender é a aparente importação de certos “métodos franceses”, como se a força de uma reivindicação se medisse pelo número de montras partidas, carros incendiados, pilhagens e confrontos com a polícia.

Quanto aos meus, por agora, estão descansados. Bruxelas continua no mesmo sítio, eu continuo em casa quando me apetece e, se tiver de ir ao centro, logo vejo. Afinal, há dias em que a maior dificuldade de viver em Bruxelas não é a manifestação. É conseguir convencer quem está longe de que não estamos, literalmente, no meio de uma.

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