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Prevenir o suicídio começa na família

21 de outubro de 2026 às 08 h45

As recentes Jornadas sobre Comportamentos Suicidários, realizadas no Luso, voltaram a recordar-nos uma realidade muitas vezes silenciosa, mas profundamente presente na vida das nossas comunidades: o sofrimento psicológico que pode conduzir à ideação suicida, aos comportamentos autolesivos e, nos casos mais graves, ao suicídio.

No debate sobre “Ideação de Morte nos Cuidados de Saúde Primários”, tornou-se evidente aquilo que os profissionais de saúde observam diariamente: a prevenção do suicídio não começa no serviço de urgência, nem na consulta de Psiquiatria. Começa muito antes, frequentemente na família com apoio das equipas de Saúde Familiar do Centro de Saúde.

Os Cuidados de Saúde Primários ocupam uma posição única nesta área. O médico e o enfermeiro de família acompanham as pessoas ao longo dos anos, conhecem as suas histórias, as suas fragilidades, as suas famílias e os momentos de transição que tantas vezes aumentam a vulnerabilidade emocional.
Muitas das pessoas que acabam por morrer por suicídio tiveram contacto com serviços de saúde nos meses anteriores. Esta evidência recorda-nos que cada consulta pode representar uma oportunidade de identificar sofrimento, escutar sem julgamento e intervir precocemente.

Quando falamos de suicídio, falamos inevitavelmente de saúde mental, mas também de relações familiares, isolamento, desemprego, doença crónica, violência, perdas afetivas e ausência de esperança. São fatores que raramente surgem isolados e que exigem uma resposta integrada.
É por isso que o trabalho em equipa assume particular relevância. Médicos, enfermeiros, psicólogos clínicos, psiquiatras, inseridos ou não nas equipas comunitárias de saúde mental e recursos como a Linha SNS 1411 devem funcionar como uma rede articulada de apoio, capaz de acompanhar as pessoas para além dos momentos de crise.

Por exemplo, cabe à Linha SNS 1411, sempre que um cidadão liga, fazer a respetiva sinalização para a sua equipa de Saúde Familiar. É simples e pode salvar vidas.
A preocupação torna-se ainda maior quando olhamos para os adolescentes. Estima-se que cerca de um em cada cinco jovens apresente comportamentos autolesivos em algum momento da sua adolescência. Estes comportamentos nem sempre representam uma intenção suicida, mas nunca devem ser banalizados. Muitas vezes constituem uma forma de expressar sofrimento emocional intenso, quando faltam palavras para o descrever.

Vivemos também num tempo em que as redes sociais e o mundo digital influenciam profundamente a construção da identidade, a autoestima e a forma como os jovens lidam com as emoções. A internet pode oferecer suporte e pertença, mas também amplificar a solidão, a comparação social e a exposição a conteúdos potencialmente nocivos.

Perante esta realidade, a família continua a ser um dos mais importantes fatores de proteção. Não substitui os profissionais de saúde, nem deve assumir responsabilidades que lhes competem. Mas entre consultas, é frequentemente a família que consegue identificar mudanças de comportamento, perceber sinais de alerta e oferecer presença, proximidade e apoio emocional. Na prática clínica, observamos frequentemente pais e familiares dominados pela ansiedade, culpa ou sentimento de impotência. Um dos objetivos da equipa de saúde familiar é precisamente ajudá-los a transformar essa angústia em capacidade de ação, tornando-os parceiros ativos na vigilância e no suporte da pessoa em sofrimento.

A prevenção do suicídio é uma responsabilidade coletiva. Exige investimento em saúde mental, maior integração de cuidados, reforço das equipas comunitárias e combate ao estigma que ainda impede muitas pessoas de pedir ajuda.
Mas exige também algo aparentemente simples e profundamente humano: disponibilidade para escutar.
Porque, muitas vezes, aquilo que antecede um gesto desesperado não é a falta de tratamento. É a sensação de que ninguém compreende a dor que está a ser vivida.

E talvez por isso a mensagem mais importante seja esta: na prevenção do suicídio, a família não é apenas um recurso social. É frequentemente uma intervenção clínica. E o Centro de Saúde continua a ser um dos lugares mais importantes para transformar sofrimento silencioso em esperança acompanhada.

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