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Sossegar

16 de outubro de 2026 às 12 h15

Conseguir sossegar é de uma importância enorme. Sossegar é uma palavra sussurrada e pode ser dita ciciada, e com a força dos “esses” que dão aquele som de cobra à língua.

Sossegar permite repousar, permite viver tranquilo, permite olhar a tormenta de modo calmo, meditativo.

Sabemos que às vezes a impossibilidade de sossegar-nos é externa, porque o vizinho é um camelo, o operário é um enganador, a consulta nunca mais chega, o marido é um alcoólico.

Sossegar é o que necessita a política em muitas ocasiões. Pontos de situação, momentos de passagem de testemunho acarretam avaliação e colocam os factos em carris com destino solúvel.

Sei que muitas vezes a intolerância mina a tranquilidade, o dedo acusador interrompe o diálogo. A resolução precisa de ponderação e de palavras contidas, frases sem adjetivos desagradáveis, sem interjeições, sem apoucamentos, sem infâmia, sem perfídia. Hoje esta realidade é difícil e rara. A acusação vem antes de qualquer avaliação do problema.

Os factos podem ser surpreendentes á luz das diversas perspetivas. Não vivemos num mundo branco e preto, nem num mundo de cinzentos de muitos matizes.

Não! Vivemos entre rosas tímidos, vermelhos intensos, amarelos brilhantes, e uma panóplia inesgotável de cores e intensidades. Essa é a beleza da vida, a força dos pirilampos, das andorinhas, das cigarras, que são simultaneamente vorazes predadores, e no último caso, inquietantes barulhentos sem um fim evidente. A natureza aceita toda esta construção diferente e permite a sua propagação e perpetuação. As formigas trabalham e combatem umas com as outras em territórios incrivelmente latos. Os papa-formigas devoram milhões delas para se alimentarem num banquete genocida. As formigas reorganizam-se e reconstroem.

A natureza sossega a maioria do tempo apesar das incríveis tormentas e mortandades que propicia. Se não olharmos só para as pessoas, num noticiário sobre as diversas espécies, vemos a brutalidade de um grande fogo. Onde se esconderam os insetos? As cobras, os ratos, as formigas? Podemos prever que morreram em números incontáveis.

A natureza depois tranquiliza-se, sem mais, que a sua dinâmica impercetível reconstrói e ocupa o espaço com novas soluções. Lá regressam animais e plantas.

Imaginemos o nosso cérebro como um espaço ardido – só o sossego, a reflexão pode recuperar as sinapses desentendidas, mal encaixadas. De facto, esta realidade não se encontra muito nos humanos que não se tranquilizam, não se sossegam. Obstinados e obsessivos adormecem nas suas “neurodivergências” que acabam por lhes controlar a vida e os raciocínios.

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