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O poleiro e as pretendentes

06 de outubro de 2026 às 19 h00

Bette Davis, um dos nomes mais sonantes do mundo da representação, faleceu a 6 de outubro de 1989. A atriz vencedora de dois Óscares, entre outras performances icónicas, ficou imortalizada em Eva.

Para todos os poleiros há vários pretendentes. Em Eva esta obsessão é jogada no feminino: estamos a falar do teatro e das suas façanhas. Embora se apresentem sob a marioneta de homens, desde o diretor ao argumentista da peça, o papel principal pertence a uma mulher. E Margo Channing é a primeira, a segunda e a terceira escolhas. A sua expressão permanece sempre desconfiada, o sobrolho levanta-se o quanto baste para não deixar escapar qualquer antevisão de insegurança, e o seu sorriso falso a todos engana, como a grande atriz que é, dentro e fora do filme, do qual quase derrama. Não é o arquétipo da beleza mas, como na canção de Kim Carnes, tem os olhos da Bette Davis.

Tudo vai bem, até que Eve Harrington (Anne Baxter) aparece. Primeiro como um cão cheio de fome, depois consegue aprender a estar, a fazer, sobretudo a ser como Margo, a mulher que a jovem idolatra e que, noite sim noite sim, visualiza nesses magníficos palcos da Broadway. O filme funciona, em diante, como um jogo em que Margo entrou e do qual já não pode sair, um jogo em que deixou Eve ocupar um lugar secundário enquanto braço direito, e que só termina quando a pupila lhe roubar a fatiota toda e, eventualmente, o protagonismo no ato da sua vida, o lugar no poleiro cimeiro da sua existência, o palco. E isto acontece não só por ser mais bonita e mais interessada, mas por ser mais jovem.

“Como todos os grandes filmes de Hollywood, Eva aproveita a deixa para falar mal de Hollywood, mantendo-se à distância seja pelo lugar (Nova Iorque), seja pela arte (teatro)”

 

Neste filme é dado espaço para os intervenientes principais da trama narrarem o seu pedaço da história, como uma reunião de alcoólicos anónimos em que cada um se queixa à sua maneira contra a malvada da vida, intitulados todos ao direito acrescido de darem a sua vil opinião sobre os outros, o que por vezes serve da luz que irrompe pelo entreabrir da porta do trecho de narrativa seguinte. Tamanha eficácia na técnica de se contar uma história surge, sem grande surpresa, de uma das mentes da sétima arte mais brilhantes que conheço: a do realizador e escritor do filme, Joseph L. Mankiewicz.

É certo: Eva está repleto de clichés típicos do cinema clássico, que até o mais distraído dos espectadores conseguirá, sem grande esforço, completar antes de serem pronunciados até ao fim; faz referências a pessoas e grupetas que, a certa altura, são difíceis de seguir, sobretudo passado este tempo todo; parece-nos, de certa maneira, como aliás nos parecerão todos os filmes desta era, teatralizado, os atores tal qual um robô no seu lugar, à espera da deixa para se moverem ou deixarem uma emoção exagerada qualquer explodir de dentro para fora de si.

Mas isto tudo acontece porque os filmes como Eva pertencem a todos nós; não porque tenham nascido connosco (pelo contrário), mas porque abriram caminho para o que hoje se faz. Mais do que isso, ajudaram a construir as estradas que nos levam ao cinema, além de terem graduado os óculos através dos quais o vemos.

 

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