A ilusão da proximidade
Há uma diferença, nem sempre valorizada, entre ter uma urgência aberta e ter uma urgência a funcionar. Em Portugal, habituámo-nos a tratar as duas coisas como sinónimos. Talvez por isso a anunciada concentração das urgências de Ortopedia e Traumatologia provoque tanta inquietação: obriga-nos a confrontar a arquitetura formal do sistema, com a realidade que existe por detrás dela.
Durante décadas, a proximidade foi um dos pilares da organização hospitalar. Hospitais espalhados pelo território, múltiplas especialidades e respostas locais eram possíveis porque existiam médicos em número suficiente para sustentar esse desenho. Entretanto, os recursos humanos diminuíram, a medicina tornou-se mais diferenciada e a organização permaneceu praticamente intacta. Conservámos o mapa. Conservámos as placas. Conservámos as escalas. E, com admirável disciplina burocrática, conservámos até a aparência de normalidade. Faltaram apenas os profissionais necessários para que tudo isso continuasse a significar a mesma coisa.
Foi então que o sistema encontrou soluções criativas. Multiplicaram-se horas extraordinárias, contratações episódicas e tarefeiros. Nada disto põe em causa a competência individual de quem presta esse trabalho. O problema é outro: uma equipa não é uma soma de turnos e um serviço hospitalar não é uma sucessão de presenças compradas à hora. A medicina exige continuidade, articulação, conhecimento da instituição e responsabilidade sobre aquilo que acontece depois da primeira observação. Quando estas dimensões desaparecem, resta a escala preenchida, que é, reconheçamos, um documento administrativamente muito reconfortante.
Também os internos passaram a ocupar uma parte demasiado importante desta engrenagem. Médicos em formação, que deveriam aprender dentro de equipas robustas e diferenciadas, acabam frequentemente convocados para assegurar aquilo que já não conseguimos garantir com especialistas. No papel, a escala fecha. A formação, talvez nem sempre.
É neste contexto que a concentração de algumas urgências deve ser discutida. Não como um ataque à proximidade, mas como uma tentativa de distinguir proximidade geográfica de capacidade clínica. Mais vale um serviço verdadeiramente preparado para tratar doentes complexos do que vários serviços apenas formalmente abertos. A distância conta, evidentemente. Mas uma porta próxima que termina numa transferência para outro hospital talvez seja menos próxima do que parece.
A Ordem dos Médicos deve ser ouvida. Aliás, deve ser uma das vozes centrais desta discussão. Deve exigir critérios técnicos, segurança, equipas adequadas, supervisão dos internos e tempos de acesso aceitáveis. Mas deve também aceitar a realidade tal como ela é. Não é possível defender, ao mesmo tempo, todas as urgências abertas, todas as especialidades disponíveis, equipas completas em permanência e os mais elevados padrões assistenciais num sistema que não dispõe dos recursos humanos necessários para cumprir essa ambição. Pode ser um horizonte desejável. Como modelo imediato, é uma utopia. E as utopias, embora elegantes em documentos estratégicos, têm uma utilidade clínica limitada.
Concentrar urgências não cria ortopedistas. Não melhora carreiras, não resolve salários, nem torna o SNS subitamente mais atrativo. Mas pode permitir utilizar melhor os profissionais existentes, formar equipas mais consistentes, reduzir a dependência de soluções avulsas e devolver coerência a um sistema que há demasiado tempo vive entre aquilo que anuncia e aquilo que consegue efetivamente prestar.
A questão, por isso, não é saber quantas portas permanecem abertas. É saber o que existe depois de as atravessar.
Porque preservar uma estrutura incapaz de cumprir plenamente a sua função também é uma forma de encerramento. Apenas mais discreta, mais burocrática e, talvez por isso, socialmente mais confortável.
Os doentes, contudo, não são tratados no organigrama. São tratados no mundo real.