A epidemia dos diagnósticos médicos: estaremos realmente mais doentes?
Li, há dias, um artigo sobre este título, que referia que “nas últimas décadas, o número de diagnósticos médicos disparou em muitas áreas da saúde. Mas esse aumento levanta uma questão cada vez mais discutida entre clínicos e investigadores: estaremos perante uma população mais doente ou perante uma medicina que alargou, talvez demasiado, as fronteiras da doença?” Na base desta questão está o livro “A Era dos Diagnósticos”, obra premiada, escrita por uma médica neurologista inglesa, Suzanne O’Sullivan, que nele analisa este tema.
A evolução da medicina nas últimas décadas levou ao aparecimento de um enorme ‘catálogo’ de doenças, com códigos que os médicos têm de usar no seu dia a dia, tarefa que lhes consome tempos consideráveis, que são roubados ao que mais importaria, o contato com o próprio doente. O ICD-10 (Classificação Internacional de Doenças), que usamos diariamente, contém mais de 16 mil códigos (a nova versão da classificação (ICD-11) foi expandida significativamente e já contém mais de 55 mil códigos), e a sua Modificação Clínica dos EUA (ICD-10-CM) contém mais de 69 mil, genericamente cada um correspondendo a um procedimento hospitalar. Na área da psiquiatria, o DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, na sua recente 5ª edição) tem 1 152 páginas, abrangendo mais de 500 códigos de diagnóstico se contarmos as diferentes subcategorias, especificadores de gravidade e condições adicionais de atenção clínica. Isto é, há mais de 500 doenças mentais diferentes!
Teoricamente, estes códigos significariam diferenças entre os diagnósticos, algumas difíceis de discernir. De facto, esta “epidemia” traduz-se, muitas vezes, apenas num aumento alarmante no número de rotulagens médicas e psiquiátricas, transformando dores e imperfeições, comportamentos, traços de personalidade ou angústias quotidianas em patologias catalogadas: tristeza, ansiedade leve, cansaço ou agitação passam a ser vistos como distúrbios clínicos, como o TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade) ou autismo. A ambição dos médicos e outros cientistas e a ansiedade dos utentes fizeram que chegássemos aqui!
As redes sociais banalizam e “romantizam” termos de saúde mental, incentivando a busca por rótulos e automedicação. Um exemplo claro desta terminologia é o burnout, distúrbio emocional caracterizado por uma resposta prolongada a ‘stressores’ laborais crónicos, resultando em exaustão extrema, cinismo e perda de eficácia profissional, que eu só vim a conhecer na última das minhas 4 décadas de atividade clínica, mas reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como “fenómeno ocupacional”.
As consequências da resultante sobremedicalização, desta e de outras ‘doenças’, fazem-se sentir no indivíduo e na sociedade: os pacientes recebem tratamentos e remédios desnecessários que geram efeitos colaterais, e o excesso de diagnósticos superficiais desvia recursos e atenção de quem sofre de transtornos graves e profundos.
Este fenómeno é uma das principais causas do enorme absentismo laboral. A taxa de absentismo nos serviços públicos em Portugal mantém-se em níveis elevados (ronda os 7%), um valor que se situa acima da média registada no setor privado (que varia entre os 3% e os 5%), e continua a representar um desafio relevante para a gestão de recursos humanos e a capacidade de resposta do Estado, com destaque para o setor da saúde. Os dados oficiais mostram que a taxa de absentismo no SNS continua em patamares muito elevados, com os profissionais de saúde (especialmente enfermeiros e assistentes operacionais) a faltarem, em média, cerca de 30 dias por ano.
Em Portugal, a baixa médica — designada por Certificado de Incapacidade Temporária (CIT) — é emitida por um médico habilitado para atestar a incapacidade temporária do trabalhador por motivo de doença ou acidente. Para que o médico consiga fazer um diagnóstico seguro e fundamentado, segue um processo clínico rigoroso e estruturado, que combina ciência, técnica e comunicação com o paciente. Mas aqui entram aspetos subjetivos muito difíceis de caraterizar. A medicina não é uma ciência exata e os sintomas dos pacientes não são facilmente mensuráveis! A prática clínica lida frequentemente com sintomas subjetivos e cenários onde nem todas as respostas são conhecidas. Contextos emocionais, sociais e psicológicos de cada paciente alteram o curso da enfermidade e a recuperação.
“Tudo pode ser rotulado: se procurarmos com insistência suficiente, qualquer variação do humor ou hábito humano pode ser encaixada nalgum critério de diagnóstico. O ‘catálogo’ funciona como um menu onde, ironicamente, há sempre uma resposta pronta para quem quer sentir que tem algo a tratar ou justificar”.
Em conclusão, muitas vezes as pessoas procuram ativamente um rótulo (“gostaria de ter um diagnóstico qualquer”) como forma de validar as suas dores ou encontrar uma comunidade que partilhe dos mesmos sintomas. Se o leitor não tem mas gostaria de ter um diagnóstico qualquer, procure bem porque há-de encontrá-lo no ‘catálogo’!. E se não encontrar um que lhe agrade, não se preocupe, estão aí mais uns quantos na forja…