O direito a envelhecer
Os anos que temos são um dado biológico, mas o que significa ter determinada idade é uma construção social. O historiador Philippe Ariès mostrou que esse significado muda ao longo do tempo. Ser criança, adulto ou velho não significou sempre a mesma coisa, nem significa o mesmo em todas as sociedades.
Hoje, as fronteiras entre essas etapas são menos nítidas. A sequência estudar, trabalhar, casar, ter filhos e reformar-se perdeu a linearidade de outros tempos.
Vivemos mais, permanecemos ativos até mais tarde e adiamos socialmente a entrada na velhice.
Daqui nasce um paradoxo. Quanto mais prolongamos a vida, mais prolongamos a exigência de parecermos jovens. Nunca tivemos tantas condições para envelhecer e, ao mesmo tempo, tanta resistência a mostrar que envelhecemos.
É nesta contradição que prospera a mercantilização da ansiedade existencial. O capitalismo contemporâneo encontrou na finitude humana um mercado inesgotável. Cosmética anti-idade, procedimentos estéticos e uma crescente indústria da longevidade prometem adiar ou corrigir os sinais do tempo. Cuidar da saúde, procurar bem-estar ou preservar a autonomia não é o problema. O problema começa quando o envelhecimento deixa de ser uma condição da existência e passa a ser tratado como uma insuficiência que exige correção permanente.
Apagar os sinais exteriores do tempo não acrescenta, por si só, saúde aos anos vividos. Muitas vezes, apenas apazigua o medo de perder valor no olhar dos outros. Celebramos os anos que acrescentamos à vida, mas resistimos a vê-los inscritos no corpo. É contra esta lógica que começa a afirmar-se o direito ao envelhecimento.
Tal como outros movimentos de emancipação corporal contestaram padrões físicos inatingíveis, também o envelhecimento reclama uma emancipação estética. Normalizar cabelos grisalhos, rugas e pele texturada não é resignação nem desleixo. É legitimar algo que se tornou estranhamente difícil: o direito de parecer a idade que se tem.
Não se trata de condenar quem pinta o cabelo, usa cosméticos ou recorre a procedimentos estéticos. A liberdade de escolha inclui tudo isso. Trata-se de recusar o imposto invisível que nos obriga a disfarçar o tempo vivido, como se envelhecer fosse uma falha individual e não uma consequência inevitável de continuar vivo.
Começamos a envelhecer no dia em que nascemos. Aprender a viver a passagem do tempo é reconhecer a dignidade de todas as idades da vida, sem exigir que nenhuma finja ser a anterior.
