Quem tem medo das paredes?
Antes de mandar limpar uma parede, deveríamos perguntar: o que está realmente escrito ou pintado nela?
Temos tendência para colocar tudo no mesmo saco. Uma assinatura, um insulto, uma mensagem política, um mural artístico ou uma inscrição feminista passam a ser simplesmente graffiti e vandalismo. Mas não são necessariamente a mesma coisa.
No Vale do Côa, há milhares de anos, o ser humano gravou figuras nas rochas. Hoje, essa intervenção é Património Mundial.
Também os romanos escreveram nas paredes. Em Pompeia encontramos publicidade, mensagens políticas e comentários sobre a sociedade. Coimbra mantém essa tradição. Há mais de uma década, as paredes da zona histórica acolhem centenas de mensagens feministas. Algumas são propaganda, outras criatividade.
Quem não se lembra de: “Como posso ser a mulher da tua vida, se já sou a mulher da minha vida?”
Podemos concordar ou discordar, mas uma frase destas faz-nos parar.
Talvez esta seja uma das características mais interessantes da mensagem escrita numa parede: não depende de algoritmo, publicidade paga ou seguidores. Está ali e confronta-nos com uma ideia que não escolhemos receber.
A página Coimbra Street Art mostra uma Coimbra que continua a escrever nas paredes. Algumas dessas mensagens passaram muitas vezes por mim na rua.
Curiosamente, a página ainda não tinha passado por mim. O algoritmo ainda não tinha decidido encontrá-la.
Na parede, a mensagem encontra-nos. Na rede social, um algoritmo decide se somos nós que a devemos encontrar.
Depois existem os murais. Alguns atingem a dimensão de obras de arte, pela técnica, complexidade e capacidade de provocar uma reação. Um mural pode transformar uma parede banal num lugar.
Mas há também o vandalismo: a assinatura para marcar território, o risco sem mensagem, o insulto ou a destruição do património. Combatê-lo não significa apagar tudo.
Lisboa criou a Galeria de Arte Urbana e desenvolveu uma política municipal de enquadramento da arte urbana. Melbourne combina remoção, educação, prevenção e espaços destinados à street art.
Existe uma terceira via entre “deixar pintar tudo” e “apagar tudo”: criar lugares onde a expressão possa acontecer.
Coimbra poderia fazê-lo. Paredes destinadas à arte urbana. Paredes de expressão pública onde cidadãos, associações, estudantes e movimentos pudessem deixar mensagens, poesia, crítica ou intervenção política, dentro de regras claras.
E talvez a Universidade de Coimbra pudesse dar o exemplo, recuperando a velha tradição do jornal de parede: um espaço onde estudantes, professores e associações pudessem questionar decisões, lançar campanhas ou até fazer uma caricatura do reitor.
Ameaças, discurso de ódio, violência, difamação e destruição do património não são liberdade de expressão.
Mas quem decide onde termina a crítica e começa a ofensa? Uma possibilidade seria criar um Provedor das Paredes, apoiado por um conselho plural, com critérios definidos e decisões públicas e fundamentadas. Até apagar poderia servir para educar.
Não acredito numa solução perfeita. Acredito numa possibilidade de fazer diferente: ampliar a liberdade sem abdicar da responsabilidade.
Não precisamos de uma cidade sem paredes escritas. Precisamos de uma cidade que saiba distinguir.
A liberdade não se constrói apagando todas as mensagens de que discordamos. Constrói-se criando mais possibilidades para que todos possam falar e mais capacidade para que todos possam ouvir.
