Criticamos, mas o que transformamos?
No decurso de uma discussão académica recente, dei por mim a pensar num problema que ultrapassa largamente as universidades: ampliámos a capacidade individual e coletiva de reconhecer e denunciar injustiças, desigualdades e relações de poder, mas nem sempre mudamos as práticas e as estruturas que, através da nossa ação e das instituições que integramos, as produzem e reproduzem.
Nunca circularam tantos conceitos para nomear e denunciar injustiças durante muito tempo naturalizadas ou silenciadas, como o patriarcado, o racismo, o colonialismo ou a injustiça climática. Esta possibilidade representa uma conquista social e política, porque permite reconhecer formas de violência, dominação e exclusão anteriormente vistas como normais. Podemos, contudo, nomear e denunciar, deixando quase tudo no mesmo lugar.
Vejamos os museus que conservam objetos retirados dos seus territórios de origem, frequentemente provenientes de contextos coloniais marcados pela violência e pela apropriação. É fundamental rever as narrativas através dos quais são apresentados e reconhecer as condições históricas em que foram obtidos. Mas será suficiente mudar as legendas ou organizar exposições críticas sem discutir a propriedade das coleções, a sua restituição, as formas de reparação e o direito das comunidades de origem a decidirem sobre o seu destino?
Uma investigação pode apresentar-se como decolonial e, ao mesmo tempo, manter intacto o poder de quem investiga, de definir o problema, recolher a informação, interpretar os outros e decidir o que conta como conhecimento. Mudam os conceitos, mas a relação de poder permanece. Isto não significa que todos os métodos convencionais sejam coloniais, mas que uma perspetiva crítica deve questionar também como se investiga, quem participa e quem beneficia.
Pode também acontecer o movimento contrário: a crítica legítima a uma academia historicamente marcada pelo colonialismo e pelo predomínio branco, pode converter-se numa verdade única, que desvaloriza quem está associada à tradição ocidental, não pelo modo como atua, mas pela história e pelo poder que considera que se representa. Criam-se espaços de autonomia e procura-se corrigir a desigualdade histórica, mas corre-se o risco de conservar a exclusão como forma de organizar as relações. Mudam os protagonistas, mas não necessariamente a lógica que decide quem fica de fora.
O mesmo problema atravessa outros domínios. As universidades defendem a inclusão, mas continuam a determinar quais os conhecimentos legítimos. As organizações promovem a igualdade, mas concentram a decisão. Os governos anunciam transições ecológicas, mas protegem modelos económicos assentes na exploração intensiva dos territórios e dos recursos. As empresas adotam a linguagem da sustentabilidade sem alterarem as suas práticas. Promovemos a participação, mas chamamos as pessoas apenas para validarem decisões já tomadas. As redes sociais reforçam esta tendência, ao facilitarem a denúncia, a condenação e a declaração pública de uma posição. Isso pode dar visibilidade a problemas silenciados, mas também criar a ilusão de que tomar posição equivale a agir, transformando a denúncia num fim crítica sem suficiente responsabilidade prática. Aceitamos a crítica quando incide sobre os outros e resistimos-lhe quando nos obriga a redistribuir poder, a devolver património, partilhar recursos, modificar métodos ou renunciar a privilégios.
O problema do nosso tempo não é termos crítica em excesso. É permitirmos que seja reduzida a um vocabulário sofisticado, a uma credencial moral ou a uma forma de apresentação pública. Precisamos de recuperar a sua capacidade de nos interpelar e transformar, perguntando-nos sobre o que mudou depois da crítica? Quem passou a decidir? Que conhecimentos foram reconhecidos? Que poder foi redistribuído? Que património foi devolvido? Que prática foi abandonada? Que custo estamos dispostos a assumir? Se não soubermos responder, a crítica pode ser intelectualmente elaborada, mas permanece sem consequência.
