“Encíclica Duxal”
Tomaram posse ontem os Senadores do Senatus Praxis, em representação dos diversos cursos da Universidade no Conselho de Veteranos. Após a Oração de Sapiência, que ficou a cargo do Veterano de Letras Dr. Miguel Mota, e do Juramento dos Senadores, proferi a minha Encíclica, que junto partilho (abreviada) na esperança que o sentimento e brio que tento aqui espelhar, chegue a mais Doutores da Praxe Coimbrã:
O que acabaram hoje de fazer e presenciar é um cada vez mais raro fenómeno na nossa sociedade onde o que está em causa é a nossa honra pessoal. Hoje em dia os contractos legais vinculam o esforço laboral, e o que dantes era intrínseco na sociedade, a palavra de Honra, foi sendo substituída pelo moralismo pedântico das redes sociais ou pela “aura digital”. Mas se há uma virtude que permanece na Praxe Académica é que esta se mantém num plano físico e térreo, onde a interacção humana está sujeita ao dever e respeito e ao direito e responsabilidade.
Ao Senador, ainda antes do dever de representação do curso, este tem o dever de ser O exemplo perante os seus colegas naquilo que eu gosto de chamar a Lição de D. Dinis. Que nada mais é do que encarnar as virtudes do Estudante de Coimbra seja na Boémio, no Estudo e no Brio.
Muita gente associa a “Tradição” a conceitos de conservadorismo ou coisas antiquadas, fora de época, mas falham precisamente em perceber que a Tradição que hoje presenciamos e vivemos é meramente o culminar de uma democracia natural e orgânica de todas as gerações passadas. A Praxe Académica é um fenómeno vivo, e será presente e actual enquanto existirem Estudantes nesta Universidade e tânger o badalo da Cabra. Vocês têm, portanto, como dever, não uma veneração das cinzas, mas sim o da transmissão do fogo.
A Praxe antigamente era muito mais violenta, não necessariamente porque havia um surto de psicopatia geracional, mas porque era simplesmente um reflexo da sociedade na altura. E esta veio sendo evoluída, lá está, iterada, a cada geração, a cada Doutor, a cada Caloiro, acompanhando a sociedade até chegar àquilo que temos hoje. Este processo não foi puro e por vezes Coimbra, que dantes exportava tradição, passou a importar modas, hábitos e comportamentos que não nos são naturais – e mais gravosamente ainda, nasceu no seio dela própria heresias, intra e extra-mondego, maioritariamente através dos Bárbaros do Japão que hoje até já se auto-intitulam de Universidade.
O fogo de Coimbra brilha muito forte. O próprio termo “alma mater” que todos conhecem advém desse sentimento intergeracional. O caricato é que nós só nos apercebemos disto quando estamos a observá-la já quase de fora. Seja no fatalismo da Última Serenata, na mudança da nossa casa quando terminamos o curso ou no brilho nos olhos dos Antigos Estudantes quando falam dos seus tempos. E o nosso dever, dos Actuais que cá estão, é o de preservar a Tradição com respeito às suas raízes, e pugnar por mantê-la viva e relevante seja no simples pontapé à Raposa até à Serenata na Sé Velha.
Tenham isto em conta: A Capa de Coimbra é o único objecto do Universo, que sendo negro, Ilumina. Façam uso dela, não como um chouriço enrolado, mas como um distintivo da vossa honra e qualidade pessoal. Dignifiquem a vossa alma mater, pois ela vos dignifica de volta.
