O abominável Homem das Neves!
Durante o verão, todos fomos “encharcados” com o caso Luís Neves. A televisão, ainda a mais capilar das redes de comunicação de massas, ocupou horas a repetir imagens, declarações, comentários e comentários aos comentários. A avaliar pela intensidade da cobertura, parecia não existir no país assunto mais importante. Foi, literalmente, um Verão de Neves.
No entanto, as estatísticas mostram que cada vez menos pessoas veem televisão, sobretudo da forma linear e obediente que durante décadas determinou a agenda pública.
O resultado é paradoxal: nunca se falou tanto de um caso e, provavelmente, nunca uma polémica televisiva derreteu tão depressa. Fora dos estúdios, das redações e do pequeno círculo político-mediático.
Os portugueses são muito mais do que os deputados eleitos. E, no entanto, os dirigentes políticos parecem falar sobretudo para o Parlamento e para os comentadores. Organizam a sua comunicação em função das reações das bancadas, das sondagens instantâneas e do alinhamento do telejornal seguinte. Tudo isto quando já se sabe, com razoável segurança, que o Orçamento passará e que uma eventual moção de censura não derrubará o Governo.
Talvez esteja na altura de regressar às perguntas fundamentais da comunicação: que mensagem queremos transmitir, a quem nos dirigimos e por que canal pretendemos chegar às pessoas? E também com que efeito. Não basta ocupar o horário nobre. Aliás, talvez seja melhor esquecer por algum tempo o prime time e começar a procurar os portugueses onde realmente estão.
Falem livremente, sem a linguagem preparada para o excerto de vinte segundos. Não comentem apenas os comentadores. Expliquem decisões, escutem objeções e aceitem perguntas sem conhecer previamente as respostas. Venham ver-nos não apenas durante as campanhas, mas sempre, a toda a hora e em todo o território.
Organizem conversas nos cafés, nas coletividades, nas associações, nas escolas e nas pequenas empresas. Reúnam com quem vive longe dos grandes centros e raramente aparece nos painéis televisivos. Criem canais permanentes de escuta, em vez de operações ocasionais de propaganda. A política não pode continuar a confundir presença mediática com proximidade.
É difícil? É. Exige tempo, disponibilidade, organização e capacidade para ouvir coisas desagradáveis.
Seria muito mais fácil se pudessem contar com a ajuda de governos regionais, não seria?
É este centralismo atávico, sufocante e, comunicacionalmente refém que configura o verdadeiro abominável homem das neves. O Ministro, coitado, é só o isco para gerir audiências!
