Os primeiros passos (parte 11) França-2000
Dormir sobre carris para poupar dinheiro foi uma ideia que fez luz sobre as nossas carteiras, e parecia ser a fórmula mágica para uma viagem mais folgada. Era só chegar a uma estação ferroviária parisiense à noite e apanhar o comboio para um destino longínquo. O que não sabíamos é que tantas vezes vai o cântaro à fonte, que um dia acaba mesmo por partir. Aprendemos que a vida também é assim.
Numa dessas noites, arriscámos a estação de Saint Lazare sem sequer saber que partidas aí haveria. Só havia um comboio a partir, mas era somente para Rouen, uma cidade que não distava assim tanto da capital francesa. Embarcámos, mas hora e meia depois chegávamos à estação final. Pior foi quando nos obrigaram a sair de lá já que ela encerraria durante a noite.

Contas feitas, três jovens estavam na rua, a horas impróprias, e sem saber o que fazer. Como se estava em pleno mês de Agosto, pensámos que o frio não seria um problema, e sabendo que aquilo que não tem remédio, remediado está, não tivemos outra opção senão olhar para o chão do passeio público, em frente a uma loja da Printemps e deitarmo-nos dentro de um saco cama sobre um piso duro e frio. Sentíamos as pessoas a passar, por vezes tropeçando em nós, e começava a ter uma pequeníssima noção do que sentiria um sem abrigo. Tinha de proteger o meu material fotográfico, e ficou aconchegado dentro do casulo que ali improvisei, mesmo junto aos meus pés, acreditando que, se me assaltassem, poderia não ter o desfecho mais desolador.
Apesar do cansaço, não houve condições para dormir, fosse pelo desconforto toda aquela situação, ou pelo frio que nos começou a flagelar. Pelas três ou quatro da manhã. Era insustentável continuar ali. Pegámos nas nossas coisas e procurámos algo que pudesse servir de abrigo. O desespero ajuda a encontrar soluções, ou pelo menos a baixar a exigência ou a decência que caracteriza a nossa bitola me muita coisa. A solução encontrada foi mesmo entrar num banco, na parte onde se tem acesso à caixa multibanco.
O medo agora era outro, já que temíamos que as câmaras de vigilância especulassem sobre nós e nos vissem como marginais ou com outros propósitos ainda piores, com as consequências que daí poderiam advir. Mas soube às mil maravilhas o calor do ar condicionado. Foi o refúgio possível e, por ironia, fomos salvos pelo sector bancário. (continua)