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Império da futilidade

26 de agosto de 2026 às 11 h01

Leonard Bernstein nasceu a 25 de agosto de 1918. Maestro, de Bradley Cooper, é uma expedição negligenciada à complexa vida do compositor e maestro, um dos mais influentes da história da música.

Numa manhã que assim deixou de ser como as outras, Leonard recebe uma chamada telefónica. Do outro lado da linha solicitam o assistente para substituir o maestro titular da Orquestra Filarmónica de Nova Iorque, que ficou doente. Deste lado, de voz como quem travou perpetuamente o fumo de um cigarro, a excitação é sustida na árdua missão que é a de ter de aceitar o cumprimento de um sonho com naturalidade e descontração. Uma vez desligada a chamada, num êxtase de quem está prestes a rasgar o céu, o renovado maestro levanta-se da cama num saltarico de criança, percute o rufo da glória nas nádegas do companheiro que jaz, dormindo, a seu lado, e parte quarto fora para vislumbrar o majestoso salão do Carnegie Hall, esse teatro dos sonhos cumpridos.

Uma das suas incontáveis idiossincrasias prende-se com discutir música com os colegas a partir da casa de banho, de porta escancarada, cigarro plantado na boca, enquanto defeca. Aquela é apenas uma necessidade natural que jamais poderia interromper o génio a acontecer. Para mais, ninguém se importa muito porque Leonard é assim, e se Leonard fosse de outra maneira não seria Bernstein. Sentado ao piano a testar composições a quatro mãos, é ele quem se encarrega dos agudos: deles surge a melodia, essa letra talhada a notas mas nunca a palavras de uma música que não será cantada.

Quando Felicia o encontra numa soirée nova-iorquina, Leonard é alertado pelo destino de que a sua sexualidade é fluida e volátil, picando-o por um lado e pelo outro como se das agulhas de um metrónomo estivéssemos a falar. As peças que aquela jovem mulher angariou vida fora e transporta agora consigo para todo o lado são a seiva que lhe percorre os xilemas da esperança e da paixão. Através dos olhos de Leonard é clara a vista: reside em Felicia uma figura bissexta, alguém sem quem, agora que foram apresentados sem retorno, a frágil existência não mais fará sentido.

 

“Maestro, de Bradley Cooper, é uma expedição negligenciada à complexa vida do compositor e maestro Leonard Bernstein, um dos mais influentes da história da música”

 

Não sabemos quais os motivos que geraram aquele sentimento, que, apesar de tudo, é fútil porque o amor não configura uma linha reta para Bernstein; sabemos, no entanto, que são verdadeiros e únicos. Pelo simples facto de existirem, não significa todavia que outras paixões não possam florir, geradas por outras motivações, porque quem ganha na vida nunca ganha uma vez só. Amar daquela maneira também não é obra para todos os artistas. Por isso, voltar a sentir a ligeireza dos corpos quentes será uma inevitabilidade a mais tarde esconder, para não borrar a pintura. Até porque Bernstein sabe-o bem: se a água e o azeite não se misturam, os venenos também não.

Juntos partem, abrigados pela noite, para um teatro esquecido na escuridão, onde Leonard é incumbido de subir a palco nas vestes de um rei no seu castelo. Felicia é entretanto cortejada nos vales da imaginação, desenhados pelas linhas de diálogo impressas na resma de papel com que a aspirante a atriz encarregou o maestro. Ainda em cena, o beijo é inaugurado, embora a ficção aqui comece a ter as suas linhas apagadas.

Luzes fortes irrompem do teto do teatro, acabando com a intimidade que só a escuridão promove. A ligação consumada pelas interpretações sem jeito é quebrada. A claridade atirada pelos holofotes permite que ambos descubram que não há mais espaço em volta, que tamanha aproximação impedirá a separação definitiva.

Leonard acusa Felicity de usar aquele método para enganar todos os pretendentes. Felicity garante que não, que nem sequer se deita depois das nove da noite. Apesar de estarem perdidos nas horas, ambos sabem já que aquela incursão noturna constitui uma exceção: a exceção de que ambos andavam à procura mas que tinham medo de cometer, pois ambos sabem também que quem se apaixona nunca volta atrás, e que a vida que tínhamos antes é algo que não queremos perder.

 

 

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