Meio Século às Voltas com o Coração
Desta vez, vou desviar-me um pouco do tema que habitualmente verso nestas Opiniões.
No passado dia 1 de agosto, completaram-se 50 anos da minha primeira entrada numa sala de operações de cirurgia cardíaca. Meio século “com o coração nas mãos”, como indica o título do livro que publiquei recentemente. E foram perto de cinquenta mil os corações que por elas passaram! Se tivermos em conta que as primeiras cirurgias cardíacas modernas foram realizadas há pouco mais de 70 anos, isso significa que fui testemunha, e participei ativamente, em quase três quartos da história desta especialidade. De facto, tive a suprema honra de ter tido contato com quase todos os seus grandes pioneiros, muitos dos quais já não estão entre nós.
Como em todas as outras áreas científicas, a evolução desta especialidade neste último meio século foi de tal forma intensa que a todos nos foi praticamente impossível acompanhar o seu andamento. Daí a divisão em subespecialidades. Hoje, tal como noutras especialidades cirúrgicas, a cirurgia minimamente invasiva, feita através de 3 ou 4 pequenos orifícios, e a cirurgia robótica vão atraindo a preferência dos cirurgiões e dos doentes, embora as situações mais complexas ainda continuem a ser resolvidas através do ‘peito aberto’. De resto, mantêm-se praticamente os princípios cirúrgicos, incluindo o facto de que, na grande maioria dos casos, enquanto trabalhamos no coração ele está parado e a vida do doente é mantida pela máquina de coração-pulmão, existente desde o princípio, naturalmente também muito aperfeiçoada tecnicamente.
Esta é, pois, uma especialidade que exige muita dedicação, paixão e ambição, e, até, alguma dose de destemor nos momentos mais difíceis. Não infrequentemente senti que tinha o meu próprio coração nas mãos! Em nenhuma outra especialidade, está a vida do doente tão dependente de um resultado positivo, aliás obtido na grande maioria dos casos. E abrange todas as idades, de recém-nascidos de algumas horas até octogenários quase em fim de vida. Mas nada é perfeito, e ainda que o insucesso ande à volta de apenas um por cento, isso significa, nos números que acima referi, quatro ou cinco centenas de vidas que não conseguimos preservar. Neste momento, não posso deixar de recordar aqueles (e suas famílias) cuja confiança em nós depositada não foi traduzida pelo sucesso esperado.
E digo nós porque se me impõe referir que, ainda mais do que noutras áreas da cirurgia, aqui tudo se deve, não a uma pessoa apenas, mas a uma equipe geralmente muito numerosa, desde a sala de operações à unidade de cuidados intensivos até à enfermaria. Durante estes 50 anos, tive a felicidade de trabalhar diretamente com centenas de pessoas que deram a sua melhor contribuição e dedicação para o êxito que essencialmente atingimos, a quem estarei imensamente grato até ao fim da minha vida que, naturalmente, caminha inexoravelmente para o fim.
A área em que estes sentimentos foram mais intensos terá sido a da transplantação, com mais de três centenas e meia de casos, esses sim, praticamente terminais e em que o novo órgão trouxe uma nova vida aos doentes, rodeada de emoções, já que o coração é o símbolo de muitas delas, especialmente o amor. Daí a pergunta que tantas vezes me foi dirigida: “quem serei eu agora, com este novo coração”? E as diferenças, entre o antes e o depois, foram muitas vezes notórias, envolvendo os doentes e os seus familiares mais próximos!
Esta foi, evidentemente, uma história muito bonita, digna de ser contada, que decorreu sucessivamente em diferentes fases da minha vida, em três regiões do globo diferentes, entremeada por ações humanitárias em várias partes do mundo e cirurgias de demonstração de técnicas que, entretanto, fui desenvolvendo e/ou aperfeiçoando, em mais de 25 países de diferentes continentes, e me permitiu reconhecimento nacional e internacional.
Por isso, e ainda que sabendo que tal teria forçosamente de acontecer, não foi fácil desligar-me das salas de operações e das enfermarias em que passei seguramente mais tempo ativo do que com a minha família, que acabou por ser vítima da minha dedicação, paixão e ambição anteriormente referidas. À minha mulher e aos meus filhos e netos devo o apoio e o carinho que sempre me dedicaram, mesmo quando eu não pude, ou não preferi, estar presente!
No fim de contas, uma vida de que muito me orgulho e que valeu bem a pena viver!
