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As voltas do Volta

01 de agosto de 2026 às 08 h45

Desde que começou a ser implementado, o novo Sistema de Depósito e Reembolso para embalagens de bebidas não reutilizáveis – Volta – tem dividido opiniões. Os seus defensores sublinham que promove o aumento da reciclagem e comportamentos ambientalmente mais responsáveis. Os críticos referem dificuldades práticas, como máquinas avariadas, embalagens recusadas ou pontos de devolução distantes, e questionam também o destino dos depósitos pagos por embalagens que não são devolvidas.

Nos últimos dias, a polémica ganhou nova expressão com uma petição pública contra o sistema, que já ultrapassou as 33 mil assinaturas. Independentemente da posição que se tenha sobre o assunto, o Volta resulta de uma estratégia europeia mais ampla de promoção da economia circular e dificilmente será descontinuado. De bom grado ou com resignação, talvez faça mais sentido aceitá-lo e reorientar o debate para os seus efeitos não pretendidos, com os quais teremos de aprender a lidar.

Uma das consequências mais interessantes é a transformação das relações sociais em torno dos resíduos. Ao atribuir um valor monetário às embalagens usadas, criam-se novos incentivos, novas práticas e novas formas de interação em torno destes materiais. Nas últimas semanas, a televisão e as redes sociais deram visibilidade a pessoas que procuram embalagens nos contentores ou no lixo indiferenciado, frequentemente acompanhadas por comentários que as associam à figura do mendigo. Esta imagem, contudo, é uma representação simplificada – e em grande medida distorcida – de um fenómeno social mais complexo.

A experiência de países onde o sistema funciona há décadas indica que os recolhedores informais constituem um grupo heterogéneo. Para alguns, o depósito representa um complemento de rendimento; para outros, uma forma de organizar o quotidiano e preservar uma identidade associada ao trabalho. Há mesmo quem recolha embalagens na rua apenas para doar o respetivo valor a instituições de solidariedade. Esta diversidade de perfis reflete-se também no surgimento de iniciativas inovadoras por parte da sociedade civil. Na Alemanha, por exemplo, foi criada a plataforma Pfandgeben, que permite disponibilizar as embalagens a recolhedores informais da zona, que as levantam no local indicado pelo utilizador.

Reconhecer que a recolha informal não se reduz aos estereótipos que frequentemente a acompanham não significa desvalorizar os problemas que lhe estão associados. Quem frequenta regularmente a Baixa de Coimbra terá provavelmente observado sacos rasgados e resíduos espalhados durante a procura de embalagens. Em cidades onde a limpeza urbana já enfrenta limitações, a emergência destas novas práticas exige respostas que conciliem inclusão social e qualidade do espaço público.

Estes desafios não assumem a mesma forma em todas as cidades. Coimbra não é Berlim, nem Hamburgo. As dinâmicas da recolha informal, a organização da limpeza urbana ou a resposta das instituições locais serão inevitavelmente diferentes. As autarquias, as entidades gestoras e a sociedade civil deverão acompanhar essas mudanças e trabalhar para encontrar soluções que permitam preservar os benefícios ambientais sem agravar problemas já existentes. Nesse sentido, a verdadeira sustentabilidade do Volta dependerá não apenas da proporção de embalagens recicladas, mas também da capacidade de reconhecer e gerir, sem estigmatização e sem degradação do espaço urbano, as novas realidades sociais que o próprio sistema ajuda a criar.

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