Não foi talento
A Espanha ganhou o Mundial a 19 de julho, 1-0 à Argentina, no prolongamento. Antes disso eliminou Portugal nos oitavos, com um golo aos 90+1. Fechou a prova com sete jogos sem sofrer e um único golo consentido. Nada disto se explica por inspiração.
A nossa reação foi imediata e previsível: mudar o selecionador. É o gesto nacional por excelência. Trocamos a pessoa e mantemos tudo o resto, convencidos de que o problema estava no nome à frente do banco. A Espanha fez o contrário durante vinte anos: trocou dezenas de jogadores e três ou quatro treinadores, e não trocou o modelo. Ganhou dois Mundiais e três Europeus com o mesmo modo de jogar, e é hoje a primeira nação a deter ao mesmo tempo os títulos mundiais masculino e feminino. A sorte não se distribui duas vezes.
Portugal não perdeu por falta de talento. Nunca perde por isso. Temos talento a mais para o método que temos e o país repete o padrão muito para lá do futebol. Formamos engenheiros e investigadores excelentes e exportamo-los. Escrevemos estratégias notáveis e substituímo-las na legislatura seguinte, quase sempre antes de qualquer avaliação de resultados. Recomeçamos do zero com uma frequência que nenhum país rico se permite.
E, no entanto, já provámos o contrário. O ciclo aberto em 2014 foi protegido durante anos e deu um Europeu em 2016 e uma Liga das Nações em 2019. Não foi génio: foi tempo concedido a uma ideia, que é exatamente aquilo que deixámos de conceder.
Chamamos-lhe azar. É desenho. A continuidade exige uma coisa que nos custa mais do que o dinheiro: aceitar que o mérito de um plano que funciona fica para quem o assinou primeiro. Enquanto isso for insuportável, mudaremos sempre o treinador.

