Quando uma voz se cala
A morte de Luís Represas fez-me voltar a Florbela Espanca. Não à poesia apenas, mas ao que prefiro recordar. A bondade de dar voz a quem, sem essa voz, teria ficado silenciado, e de a fazer chegar onde, de outro modo, nunca chegaria. Represas cantou-a, e ao cantá-la, devolveu-nos também a sua afirmação e a sua luta. A de uma mulher que escreveu contra o lugar estreito que a sua época lhe reservava. Foram muitas as lutas a que deu voz. Mas dar voz nunca é só fazer ouvir, é também ensinar a escutar. Vivemos num mundo que precisávamos mais democrático e mais igualitário. Mas vemo-lo caminhar, no entanto, no sentido inverso. Talvez seja isso que hoje mais nos falta: escutar.
Nos últimos dias sucederam-se acontecimentos aparentemente sem relação entre si. Um Mundial de Futebol em que, mais uma vez, se discutiu se as regras valem da mesma forma para todos. Mas é sintoma, mais do que prova, de um mal-estar que se repete por todo o lado. O arquivamento do inquérito-crime sobre a matança de centenas de animais na Herdade da Torre Bela deixou-nos com a sensação de que a justiça, por vezes, encontra razões técnicas para não olhar de frente para o que é moralmente evidente. E, como quase sempre, processos de consulta pública onde tantas pessoas investem tempo, conhecimento e pareceres fundamentados, para regressarem com a sensação de terem cumprido apenas um requisito administrativo, sem qualquer garantia de que uma só palavra do que disseram foi efetivamente escutada. Há uma diferença entre ouvir para decidir e ouvir para poder dizer que se ouviu. A segunda cumpre a lei; a primeira é a que sustenta a confiança.
E é precisamente quando mais precisamos do que as pessoas sabem – sobre o seu território, a sua água, a espécie que veem desaparecer à porta de casa – que as instituições mais rapidamente reduzem esse saber a um formulário preenchido. Cada consulta que nada muda nada não se fica sem custo: ensina, a quem participou, que da próxima vez talvez não valha a pena.
Bem sei que são episódios diferentes. Mas dizem-nos, na realidade, a mesma coisa: revelam a fragilidade de uma sociedade que deixa de acreditar que a justiça é justa, que participar tem consequência e que as regras se aplicam com o mesmo critério para todos. Não se trata de um sentimento difuso, mas talvez de uma crise de legitimidade – a perceção de que as instituições já não fazem aquilo para que foram criadas.
Digo muitas vezes que a maior crise do nosso tempo, a policrise, como lhe chamou Edgar Morin, não é apenas ambiental, económica ou política. Talvez seja, antes de mais, uma crise de confiança, de que vale a pena participar, cuidar, esperar que as instituições sirvam a sociedade e não apenas os procedimentos que as protegem de si mesmas. Quando essa confiança se esvai, perde-se muito mais do que um processo administrativo. Perde-se um pedaço da própria democracia, porque a democracia não vive só de eleições, vive também da crença quotidiana de que ser ouvido não é um favor, mas um direito com efeito.
Florbela escreveu para a eternidade. Represas deu-lhe voz. Um e outro lembram-nos que a humanidade não se mede apenas pelo que somos capazes de construir, mas pela forma como escolhemos olhar o outro, seja uma pessoa, uma comunidade ou um ser vivo que connosco partilha o mundo. Talvez ainda vamos a tempo.
Mas isso exige cumprir as regras, em primeiro lugar. Mas mais do que isso, exige recuperar a coragem de escutar, a lucidez de questionar e a responsabilidade de agir.

