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Opinião: Os cegos que não querem ver…

21 de fevereiro de 2026 às 15 h26
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Portugal tem uma estranha capacidade para fingir que as crises são sempre inesperadas. Todos os anos há incêndios, de vez em quando há cheias e há décadas que se fala num grande sismo em Lisboa. Nada disto é novo. Mesmo assim, quando acontece, a reação é sempre a mesma: surpresa, improviso e promessas de que “agora é que vai ser diferente”.

O problema não está na falta de alertas nem na ausência de conhecimento técnico. Está na forma como o país é governado. Portugal continua excessivamente centralizado. Quem decide está longe dos problemas concretos e quem conhece o terreno tem pouco poder para agir. Os municípios sabem onde estão os riscos, mas não têm competências suficientes. O governo central tem todas as competências, mas decide à distância, muitas vezes sem perceber o que se passa no terreno. O resultado repete-se: atrasos, confusão e respostas que chegam tarde.

Não é por acaso que, em situações mais críticas, acabam por ser as CCDR a assumir a gestão dos apoios. Mas isso, por si só, não resolve nada. Distribuir dinheiro não é o mesmo que resolver problemas. As crises exigem coordenação logística, decisões rápidas, articulação entre entidades e capacidade de comando a uma escala que faça sentido. E essa escala é a regional.

E depois, o elefante na sala: a nossa dificuldade crónica em planear. Planeamento a sério, não reuniões atrás de reuniões nem relatórios que ficam na gaveta. Quantos anos seguidos de incêndios foram precisos para se perceber que a prevenção não se improvisa todos os verões? Há quantos anos se fala do risco sísmico em Lisboa sem que exista um plano claro, testado e conhecido por quem teria de o pôr em prática?

Planear implica fazer escolhas difíceis, ouvir quem sabe e manter decisões no tempo. Exige disciplina e continuidade, coisas que raramente dão votos. Enquanto continuarmos a confundir planeamento com papelada e governação com controlo central, vamos continuar a repetir os mesmos erros. As crises não são inevitáveis. O que parece inevitável é a nossa falta de coragem para mudar.

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