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53 anos e ainda sem jogar padel

23 de outubro de 2026 às 09 h30

Apesar de ter nascido em 1973, ainda durante o Estado Novo, gosto de pensar que a minha chegada ao mundo ajudou à mudança ocorrida a 25 de Abril de 1974. Nasci em Coimbra, e a minha geração cresceu a ouvir que era preciso tirar um curso para ser alguém. Decidi-me pelo Direito e tornei-me advogado num tempo em que ser advogado era ser alguém. O meu pai também se licenciou em Direito e exerceu advocacia durante algum tempo. Havia, portanto, antecedentes. A família podia ter interrompido o fenómeno, mas preferiu dar-lhe continuidade. Hoje em dia, somos tantos que, quando se pergunta «há aqui algum advogado?», receia-se a imediata constituição de uma assembleia geral.

Durante a vida, entre o futebol e a política, habituei-me a fazer contas à manutenção e a conservar a esperança na subida quando a classificação aconselhava outra atitude. Aprendi a dizer «ponto a ponto, jogo a jogo» com a solenidade de quem apresenta um programa de governo. Levei para Lisboa a profissão, mas a cidade veio comigo: a Académica, alguns amigos e a convicção de que qualquer assunto merece discussão, mesmo quando já ninguém vai mudar de opinião. Nessa altura, pede-se outro café.

Continuo a tentar intervir civicamente, em associações. Quando se diz «é preciso fazer alguma coisa», tenho tido a imprudência de me disponibilizar. Seguem-se reuniões, actas e a descoberta de que o problema era mais simples antes de se constituir o grupo de trabalho. Mas ficam amizades e aprendizagens de valor inestimável. Pelo menos, é o que digo em casa quando perguntam a que horas acaba a reunião.

O que sempre (digo sempre, pois já não me recordo quando começou) se manteve é a minha ligação ao diário As Beiras, onde regularmente escrevo uma coluna de opinião, assim conseguindo manter a ligação a Coimbra e evitando que as minhas opiniões fiquem confinadas à família. Agradeço ao diário As Beiras, também em nome dos que vivem comigo.

Dos “clichés” da vida, posso afirmar que já escrevi um livro e colaborei com textos jurídicos noutros. Quanto à árvore da conhecida lista, tem a vantagem de crescer sem precisar de prefácio e ninguém lhe pergunta quantos exemplares vendeu. Pelo meio, há dois filhos. O mais velho já concluiu Direito. A mais nova está em Humanidades e receia-se que siga o mesmo caminho. A mãe também é advogada. Estamos a um degrau de distância de transformar uma família numa sociedade de advogados. Os miúdos cresceram entre discussões sobre futebol, cláusulas contratuais e piadas sobre advogados. Dificilmente poderão alegar que escolheram o curso sem conhecer os riscos. Houve informação pré-contratual suficiente.

Temos também um pequeno negócio familiar de turismo. Depois da Académica, da Assembleia da República e dos tribunais, faltava-me conhecer uma fiscalização verdadeiramente exigente: a avaliação de um hóspede. Na política, podemos explicar que não tivemos maioria para cumprir o programa. No turismo, se prometemos água quente, convém que ela apareça. Não há parceiro de coligação a quem atribuir a responsabilidade pela caldeira. Verdadeiramente importante é afirmar que não jogo padel. Aos 53 anos, sendo advogado em Lisboa, sei que esta situação causa desconfiança. Aguardo que a Ordem esclareça se ainda posso exercer. Mas jogo ténis de vez em quando, por vezes com a minha mulher. Entre dois advogados, uma bola junto à linha pode dar origem a um incidente processual. Felizmente, a rede impede a aproximação das partes. Pratico o suficiente para dizer que jogo, mas com os intervalos necessários para atribuir os resultados à falta de ritmo. Nunca perdi por falta de talento: ainda não há provas suficientes.

E o futuro? Regressar às origens, talvez. Escrever mais um livro: há pessoas que ainda não conhecem a minha opinião sobre determinados assuntos, e custa-me abandoná-las à sua sorte. Contudo, ambiciono sobretudo saúde, tempo para e com os meus e férias com a minha mulher em que sejamos nós a perguntar como funciona o jacuzzi. Aos meus pais, também de parabéns, obrigado por me terem posto no mundo. Admito que não esperassem tantas alegações. Espero que a vida nos dê tempo para ainda verem o vosso filho progredir no ténis. Não será prudente fixar uma data. Peço apenas uma prorrogação generosa: o talento continua em fase de instrução.

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