Opinião:
Coimbra e a sua vetusta academia convocam em permanência para a Festa, alimentando a vida à própria cidade. A Latada e a Queima das Fitas são momentos de celebração, convívio e tradição a preservar. Isto leva, por vezes, à transgressão, confirmando o que, desde sempre, se disse: as sociedades precisam de um certo excesso para se tornarem vivas e prósperas. Mas isso não significa fechar os olhos àquilo que, com o passar dos anos, se tornou preocupante.
Será que a diversão precisa de andar de mãos dadas com o álcool? Os dados divulgados pela OCDE em 2025 colocam Portugal entre os países europeus com maior consumo de álcool, com 11,9 litros per capita. Cerca de 20% da população entre os 15 e os 74 anos consome álcool diariamente ou quase diariamente.
Entre os jovens, a realidade também merece atenção, havendo estudos a apontar para consumos frequentes e experiências de binge drinking, muitas vezes terminando em estados de embriaguez severa.
Andando pelas ruas de Coimbra durante as noites académicas, percebe-se que não se está perante uma questão meramente estatística. Jovens que começam a noite já embriagados, “litrosas” debaixo do braço, misturas preparadas para consumir na rua ou à porta dos bares. Depois surgem os desacatos, os conflitos, o vandalismo e, em alguns casos, a necessidade de intervenção policial e dos serviços de emergência médica.
Será isto diversão?
A noite também mudou. Noutros tempos não distantes, apesar dos excessos cometidos, notava-se outra relação com o tempo e com o convívio. Hoje parece existir a necessidade de consumir tudo rapidamente, como se não houvesse amanhã para celebrar. É evidente que não se resolve este flagelo social apenas com fiscalização ou proibições. É necessária prevenção, sensibilização e, sobretudo, uma mudança cultural, o que opera inevitavelmente uma alteração nos hábitos de consumo. Agora que se discute o alargamento dos horários das esplanadas até às duas da madrugada, importa também discutir se se estão a criar melhores condições para o convívio ou simplesmente mais oportunidades para o consumo exagerado.
Coimbra vai tendo respostas para estas preocupações. Em 2003, o projeto “Descobre Outros Prazeres”, promovido pelo IDT em parceria com a Câmara Municipal de Coimbra, a Associação Académica de Coimbra e a Escola de Hotelaria e Turismo de Coimbra, procurou apresentar aos estudantes alternativas ao álcool durante a Latada e a Queima das Fitas. O resultado foi surpreendente: em apenas oito noites foram consumidos 750 litros de leite, 2500 litros de sumo e 130 quilos de fruta. Havia, afinal, quem quisesse celebrar sem álcool. Talvez se devesse voltar a olhar para esse exemplo e replicá-lo em futuros eventos. Estes números são dignos e expressivos para exigir uma profunda reflexão e ação. Não se trata de acabar com a festa, muito menos de apontar o dedo aos jovens, mas apenas de abrir caminhos para outras escolhas. Tomando as exigidas medidas preventivas, Coimbra e a sua academia sairão mais reforçadas no seu papel educativo e cívico. Afinal, não é preciso consumir álcool em excesso pelas ruas para afirmar a cidade como a capital do conhecimento e muito menos para se divertir. Talvez o problema não esteja apenas na quantidade de álcool que consumimos, mas na forma como aprendemos a celebrar.
