Opinião: Portugal +(ou -)COESO

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Foram recentemente divulgados os resultados preliminares dos Censos 2021. Para a região Centro, em particular para a Beira Serra onde orgulhosamente me incluo, do ponto de vista demográfico, estes dados só vieram confirmar o que ao longo dos dias destes últimos 10 anos era possível sentir: estamos num território cada vez mais “despido de pessoas”.
Se é um facto que a tendência nacional foi também essa, fica por demais evidente que continuamos num país em que os pequenos concelhos do interior continuam a perder população de forma significativa. E poucos (mesmo muito poucos) são excepção.
Mas vamos por partes. Se o país perde população no seu global algo não está bem. Segundo o INE, em termos censitários, apenas na década de 1960 a 1970 o país tinha registado um decréscimo da sua população. Significa isto que Portugal não consegue tornar-se atrativo para fixar os que cá estão e para permitir que os agregados familiares se constituam em maior número e com mais membros.
Segundo palavras proferidas por membros do nosso governo, a solução aparente passa pela imigração. Relativamente à imigração, compete-me dizer que bem-vindos sejam todos os que vierem por bem (não fosse eu filho de emigrantes), mas ainda assim, acho que algo mais deverá ser feito para que os nossos que emigraram se sintam motivados a regressar, bem como para que as famílias portuguesas sintam condições favoráveis para a promoção da natalidade.
No combate inicial aos efeitos da pandemia e numa tentativa conjunta para promoção da coesão territorial, a nossa governação criou dois programas de apoio à criação de emprego e à fixação de pessoas no interior do país, que denominou de +COESO. Olhando para os propósitos destes apoios e para a forma como os mesmos seriam distribuídos, considerei estarmos perante uma excepção ao normal funcionamento dos apoios do quadro comunitário. Uma excepção francamente positiva que me fez aconselhar vários jovens a tornarem as suas ideias em negócios e a tentarem agarrar esta oportunidade. Olhando agora de forma mais atenta para os resultados destes programas, conseguimos perceber que não há falta de capacidade dos nossos cidadãos nem das nossas empresas e que a vontade em se fixarem no interior existe, só há que ter a coragem de apoiar devidamente essas vontades. Neste programa os grupos de acção local (GAL) receberam uma quantidade muito elevada de candidaturas a totalizarem uma procura de 10 ou mais vezes o valor da dotação dos programas. Estes valores deveriam fazer refletir a nossa governação. Quando há demonstração clara da vontade das pessoas investirem, criarem riqueza, se fixarem e valorizarem o território nacional na sua totalidade não faz sentido olharmos devidamente para isto? Obviamente que faz.
Para fazermos uma inversão demográfica da nossa região é obviamente necessário contar com coragem e arrojo político. É difícil motivar jovens que arriscaram criar os seus próprios negócios nestes territórios e que concorrem a estes apoios terem como resposta que o seu projecto é meritório, que a sua candidatura está aprovada, mas que não há dotação orçamental para os apoiar. Em resumo: és bom mas não temos forma de te apoiar. Mais difícil de motivar se torna quando qualquer pessoa percebe, pela grandeza dos números, que falamos de migalhas quando comparado com TAP, BES, BPN e etc. Migalhas também são pão, é verdade, e também alimentam, mas face ao filet mignon dados aos grandes interesses, exigia-se no mínimo uma sopa.
Não podemos desperdiçar mais talento. Os territórios necessitam, as pessoas querem e têm capacidade. Politicamente há que fazer o necessário. É obrigatório assumir este desígnio. Precisamos efetivamente de um Portugal + (só +) COESO. Precisamos de +PORTUGAL em toda a sua dimensão, de norte a sul, do litoral ao interior.

*Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo
o novo Acordo Ortográfico

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