Opinião: Golpe de Estado ao vivo

Posted by

A 16 de novembro de 2000, assisti, na companhia do Embaixador António Dias, às promoções dos oficiais das Forças Armadas da Guiné-Bissau e à nomeação do novo Chefe do Estado-Maior General, um dia histórico ensombrado pela ausência do Brigadeiro Ansumane Mané, figura mítica da libertação do país. No dia 20, este comunicou, via rádio, a discordância com as promoções, declarando-as nulas, destituindo os oficiais e autoproclamando-se Comandante Supremo das Forças Armadas. Cruzara o Rubicão rumo à sua queda histórica:
na madrugada de 23, numa célere operação militar, tropas do CEMGFA ocuparam todos os quartéis da cidade e avançaram sobre a Base Aérea de Bissalanca, reduto do Brigadeiro até então considerado inexpugnável.
Acordei às quatro da manhã com detonações de bazucas, AK-47 e gritos de “bô bim, bô bim!” (“venham depressa”, em crioulo). Num minuto, tinha sobre mim os dois elementos do Grupo de Operações Especiais (GOE) da PSP, com quem residia, e seguimos de imediato para casa do Embaixador, que já falava pelo telefone com o então MNE, Jaime Gama. Enquanto se delineava a estratégia, liguei para os meus pais que, em Coimbra, ouviam na TSF que Bissau estava sob fogo.
Após uma intensa troca de contactos, pedi autorização ao Embaixador para ir ao Hotel Hotti, próximo do aeroporto: aí tinha nacionais a meu cargo e as comunicações estavam cortadas. “O Dr. não está bom da cabeça”, disse-me com amizade o chefe GOE quando lhe propus ir de Jeep ver os nossos compatriotas. Apesar da relutância e de uns impropérios indizíveis, apareceu minutos depois “carregado” com duas FN Browning e uma HKMP5. Recomendou-me calma na condução, médios acesos e piscas ligados. Primeiro controlo: “Quem são?”, perguntou um de dois miúdos de Kalashnikov em riste. “Embaixada de Portugal”, respondi, branco como a cal ao vê-lo introduzir o cano dentro da viatura e a centímetros do meu nariz, “vamos ao Hotel Hotti e não demoramos nada”. “Podem passar”, aceitou meio grogue e desconfiado, enquanto o seu camarada brandia a AK e disparava furiosamente para o ar.
Chegados ao Hotti, fui tragado por uma multidão desesperada de portugueses. A maioria deles ex-combatentes, acompanhados das respetivas famílias e que tinham ido a Bissau numa viagem de saudade… Por todo o lado, vozes histéricas, invocando falta de segurança, fome, filhos pequenos. Num ato súbito e talvez irrefletido, subi a uma mesa e assobiei estridentemente: “Meus Senhores, vamos ter calma que eu preciso de saber quantos são, os números de passaporte ou outra identificação!” Ainda ouvi lá no fundo da sala, num silêncio sepulcral: “M. le Consul, je suis canadien, est-ce que vous pouvez me transporter dans votre bateau? A crispação acabou por se resolver em poucas horas, com a fuga de Mané e um cessar-fogo aceite pelos seus homens. Apesar das consequências trágicas, e que culminaram uma semana depois na morte do Brigadeiro, foram, a meu ver, tomadas as medidas necessárias para a reposição constitucional e restituída a legitimidade ao então Presidente da República, Koumba Ialá. Mais essencial ainda para Portugal, dessa vez, não foi preciso evacuar ninguém.

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.