Opinião – Do amor ao horror

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No dia de São Valentim, que se celebra a 14 de fevereiro, muitos enamorados trocarão juras de amor e fidelidade, por acreditarem que os profundos e veros sentimentos que os tornam felizes, serão tão eternos como os grandiosos encantamentos que dão um sentido especial às suas vidas.
Pelo que amanhã será dia de frenesim para quem busque o presente ideal que mostre o que sente por quem ama, das mais simples às mais exóticas flores, ou aos mais ambicionados “gadgets” que sociedades consumistas induzem a comprar, numa globalização que torna tudo tão parecido. E muitos serão aqueles que esgotarão restaurantes e afins, para proporcionarem aos seus pares românticos jantares, quiçá prenúncios de muitos outros momentos de ansiados e bons convívios.
A realidade da vida atual é diversa das de outrora. Para o constatar, basta notar a deterioração de alguns valores éticos, ou a indiferença com que muitos vizinhos passam anos sem se saudarem, quanto mais relacionarem-se. Mas, num mundo em que quase tudo parece ser efémero, e em que as comunicações eletrónicas substituem cada vez mais o encanto das falas presenciais, felizmente que continua a haver grandes romances, e amores tão delirantes como havia dantes…
Só que quase não há dia em que não se tome conhecimento de gente que sofre por causa do que alguns julgam ser amor, mas não passa de posse abusiva e honra indevida, fruto da bestialidade ou insegurança de quem se diz gente, mas que é capaz de ferir e matar de modo atroz quem deles se afastar, por o amor antes sentido ter acabado. E a mais recente notícia de outro crime de origem passional, ocorrido de forma brutal, nefasta e cruel, não deveria ter sido minorado por quem disse logo que somos o quarto país mais pacífico de todos, como se estatísticas anulassem mortes, estupros, espancamentos, desfigurações, e demais violências que parecem não ter fim.
Do amor ao horror vai por vezes um pequeno passo, pelo que nunca se devia esquecer que amar passa também por respeitar os outros naquilo que são, e nas diversas formas que têm de viver as suas vidas. E como ainda há demasiadas pessoas que desprezam, humilham e condenam quem é diferente, como pôde o atual Primeiro-Ministro utilizar, na Assembleia da República, a cor da própria pele, no confronto político com uma mulher! É que o exemplo de respeito absoluto por qualquer pessoa, sem olhar a género, orientação sexual, cor e credo, tem sempre de vir de cima.
As reportagens sobre casos lamentáveis, mas mediáticos, mostraram um povo não só indignado, mas também algo atemorizado com a presente escalada de violência doméstica. Para haver maior tranquilidade no nosso país, terá de passar a haver muito maior respeito pela dignidade de qualquer ser humano, o que obrigará a mudar comportamentos, e a nossa forma de ser e estar…
Qualquer mudança social começa por ser do foro individual, mas construir um futuro melhor é sempre uma tarefa coletiva. E como a desejada e imperiosa mudança de mentalidades demorará uma eternidade a vingar na sociedade, cabe ao atual governo garantir já muito maior proteção a quem for vítima de violência doméstica, e levar o sistema judicial a atuar nestes crimes públicos de forma mais célere e assertiva. Sem esquecer que as medidas de coação e as molduras penais deviam dissuadir comportamentos anti-sociais, como os que aqui foram sucintamente descritos.
Amar é ousar… Pelo que nunca será utopia pensar que se pode mudar o que não funcione bem nos sistemas políticos e sociais, de modo a tornar a nossa sociedade muito mais humana e justa.

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