Opinião: Chamem o Varoufakis

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É inédito, mas aconteceu mesmo. Pela primeira vez, a Comissão Europeia “chumbou” o Orçamento de Estado de um país da zona Euro, o da Itália.

Com a segunda maior dívida da zona euro (nesta matéria, Portugal carrega a medalha de bronze, e a de prata no “maior défice”), e que corresponde a mais de 130% do PIB italiano, essa coisa de haver mais vida para além do défice não caiu muito bem entre os responsáveis europeus.

Andar a pagar dívida com criação de dívida ainda maior é chão que já deu uvas, e a fonte aberta pelo Banco Central Europeu com compra de dívida e taxas de juro baixas vai começar a ser encerrada.

Os Centenos de Bruxelas (não confundir com o Centeno português) mostraram a sua preocupação pelo défice e despesa pública italianos. Por isso, escreveram uma carta a informar o governo italiano que tudo aponta “para um não-cumprimento particularmente grave face às obrigações de política orçamental que constam do Pacto de Estabilidade e Crescimento”.

Em concreto, Itália estima um crescimento de despesa pública de 2,7%, quando o permitido é de 0,1%; e o défice estrutural irá crescer 0,8%, quando o previsto seria cortar nesse défice em 0,6% do PIB.

A resposta italiana não demorou, e os Varoufakis italianos (não confundir com o Varoufakis grego, nem com os Varoufakis portugueses) foram peremptórios ao afirmar a soberania de Roma sobre os destinos do seu povo.

Disseram ainda que as contas públicas vão “dar a volta” com base num modelo de crescimento económico, que terá também o condão de retirar Itália da armadilha da dívida (onde é que já ouvimos isto?). Insatisfeito, o vice-primeiro ministro Salvini deslocou-se à Rússia para se encontrar com Putin. Em causa estará uma troca de torneiras: fecha-se a do BCE, talvez se abra a de Moscovo.

Prevêem-se agora semanas de difíceis negociações e, à semelhança de outros casos e momentos em que se gritava a plenos pulmões que era imprescindível trilhar um caminho diferente do ordenado por Berlim ou Bruxelas, será que se irão repetir as marchas e manifestações de solidariedade com o povo e repúdio da arrogância revelada pelas instituições europeias e a miséria que impõem, ou será que agora já chegou o momento de todos, mesmo todos os membros da zona Euro, se sujeitarem às mesmas regras?

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