Há outra Alemanha

José Junqueiro

Esta é a semana do Conselho Europeu. O clima político que o antecede não permite antever nada de bom.

Merkel e Sarkozy falam a dois e a sós. Fazem de conta que tratam de coisas da Europa, mas as suas narrativas – como agora se diz – dirigem-se aos respectivos eleitorados que não lhes tributam grande popularidade neste momento. Alemanha e França estão já em campanha eleitoral e será este o contexto que poderá dominar o Conselho.

Os outros chefes de estado e de governo têm sido meros ouvintes. Neste últimos dias só David Cameron apimentou as expectativas ao sugerir que usará o seu direito de veto se forem feitas propostas de alteração que não acautelem os interesses do reino de “sua majestade”. E é discurso para ter em conta!

O nosso caso é paradigmático. O primeiro-ministro não consegue dizer-nos o que pensa. Limita-se a concordar com todas as teses da senhora Merckel, sejam elas quais forem, contrariem ou não o interesse nacional. E contrariam! Nem a chanceler diz o que pensa, nem Sarkozy diz o que quer, apenas o que pode.

Concluímos, legitimamente, que Pedro Passos Coelho e o governo apoiam o eixo franco-alemão, mesmo sabendo que nada do que é dito e feito tenha correspondência com qualquer pensamento estratégico genuíno, coerente e, sobretudo, solidário. É o seguidismo firme de uma “coisa” que não existe.

A direita europeia, representada entre nós pela coligação PSD/CDS, não quer reconhecer a “demolição europeia” que progressivamente construiu. Numa Europa a 27 apenas temos dois governos do centro esquerda.

Parafraseando o líder do PS, a Europa, tal como a concebemos, “já não existe”. E isso é dramático, porque foi àquela Europa que delegámos parte importante da nossa soberania, aceitando mesmo que seja ela a legislar e decidir em todas ou quase todas as matérias do nosso quotidiano como se demonstra pela transposição permanente das suas directivas. Falta-nos, portanto, melhor Europa, melhor liderança e melhor primeiro-ministro.

Tivemos agora a intervenção de um “velho senhor”, Helmut Schmidt, neste 4 de Dezembro, que foi capaz de afirmar: “Porque todos os nossos excedentes são, na realidade, os défices dos outros. As exigências que temos aos outros, são as suas dívidas. Trata-se de uma violação irritante do por nós elevado a ideal legal do «equilíbrio da economia externa». Esta violação tem de inquietar os nossos parceiros. E quando ultimamente aparecem vozes estrangeiras, na maioria dos casos vozes americanas – entretanto vêm de muitos lados – que exigem da Alemanha um papel de condução europeia, então isso desperta nos nossos vizinhos mais desconfiança. E acorda más recordações.” Há outra Alemanha!

2 Comments

  1. Esta mais que visto que a UE, o €, e estas politicas adotadas pela Alemanha e pela França estão condenadas ao fracaço!
    Custa-me ver todos os dirigentes dos paises da UE, a acenarem a cabeça tipo cachorrinhos, a tudo o que a alinça franco-alemã lhes manda para o ar…
    No meio de tudo isto andamos nós armados em bonecos!
    Esta na altura do povo se manifestar tambem e começar por dizer não ao € e a tanta ordem Franco-Alemã…

  2. Lucílio Carvalheiro says:

    A Europa Unida ( União Europeia) é um desígnio sempre inacabado, disso teremos que convir e pela sua concretizaç´~ao teremos que lutar. Se atendermos à História, melhor o compreenderemos e melhor cimento usaremos para a sua construção. Recordo que depois do desfazer do mundo romano, pretendeu-se afirmar a República Christiana e não vingou; Carlos Magno teve a ambição da unidade do império (Europa) e com a sua morte desvaneceu-se este propósito; Jorge da Boémia apresentou o seu projecto de Estado Universal do Estado Europeio e não obteu vencimento; Carlos V quis ser Europa e não foi; Emeric Crucé propõe a Sociedade das Nações Europeias; Napoleão, pela violência. quis ser Europa e não o foi; Hitler quis o mesmo – e falhou. Não obstante ciclicamente a Europa reúne-se em congresso e "Avança" : foi Vestefália, foi Ultreque, foi Viena, foi Versalhes. E ainda Heisínquia, Madrid, Belgrado, Paris. Tudo em vão? Não. Chegados que somos aos tratados de Roma, Mastrick, Nice, Lisboa, progressos existem, O grande problema que não se tem conseguido ultrapassar, dificilmente se ultrapassará, são os confrontos de culturas nacionalistas dos Anglo-saxões, dos Francos, os Germanos, os Eslavos, sendo que parecem ter sido sempre esquecidos os Latinos porque mais virados para o mar. É certo que Duroselle, prestigiado autor francês e grande estudioso desta temática diz-nos que sempre e contra tudo se levanta sempre o princípio da nacionalidade que sempre entravará a «Pátria Europa» concluindo «em mais de mil anos a Europa Unida nunca foi possível – porque não é possível». Em conclusão direi que o esforço de um dia a tornar possível é um desiderato que devemos prosseguir, pois, quer queiramos quer não, houve bastantes progressos, e, apesar de muitos fracassos (esta reunião hoje terminada parece te-lo sido) alguma "pedra" quebrou ; pôs a nú, os tais nacionalismos, desta feita dos Anglo, dos Francos, dos Germanos. Termino dizendo que me causa desconforto Portugal (um dos Latinos) não ter opinião – continua a querer ser "bom aluno" e recusa-se a ser estudioso….

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