São irritantes, as moscas

Muito se discute o Orçamento do Estado. Atente-se nisto: Portugal é hoje um país empobrecido, muito para além da realidade aparente. Em Portugal, as receitas (impostos) não tem hoje um carácter social e de justiça correctiva, mas de extorsão aflitiva de recursos. Pode-se dizer com verdade, e com tristeza, que regressamos a um país em vias de subdesenvolvimento.

Mais dramático do que tudo, é isto: da parte de alguns (a quem chamo “moscas políticas”), são estes os resultados que precisamente se pretendem; uma Assembleia da República transformada em “barra de tribunal” – na forma, no método, sobretudo, no diálogo; uma organização politico-administrativa de agiotagem repugnante – juntas de freguesia urbanas, câmaras municipais sem dimensão territorial nem demográfica, governos civis sem utilidade pública relevante, institutos e associações cujo sentido útil não vai muito além de serem um depósito de filiados partidários, desta feita, remunerados, etc.etc. Tudo características próprias de qualquer país do quarto mundo.

Repito: estamos endividados para gerações. Isto bastaria para nos aterrar, para nos alarmar. Mas há muito mais.

Estamos a aplicar os empréstimos (os que ainda vamos tendo) em salários e bens de consumo e muito pouco em investimentos e equipamentos. Perdemos milhares e milhares de quadros – professores, engenheiros, gestores técnicos – que continuam a ser destruídos por falta de exigência num ensino massificado que, só por o ser, não pode justificar a minimização do grau de competência (exigência). Depois, por falta de confiança, os quadros mais qualificados, que serão a excepção, fogem de Portugal: não estou a justificar os factos, estou a apontá-los.

Muito mais seria possível acrescentar. Parece-me vantajoso que os eleitores tomem consciência destes aspectos para se aperceberem de quanto o país foi e está a ser depauperado. Não são apenas os centos de milhões de euros que devemos e que, é bom não esquecer, temos de pagar. Há que entrar em linha de conta com os prejuízos (sorvedouro de receitas-impostos) que nos acarreta a actual organização político-administrativa do país que atrás mencionei e descrevi. É hoje tão pesada a dívida externa, e desbaratam-se tantos recursos financeiros que bem se pode afirmar ter o eleitor perdido a sua autonomia de decisão.

Do ponto de vista político, e tanto quanto acompanho a situação, entendo que atingimos um caos que nos avilta. O debate político e partidário não se processa em torno de ideias ou princípios, mas em jogos de intrigas, birras, e a luta partidária trava-se por despeito ou ressentimento.

Pois bem. Entendo que se impõe um regresso aos valores políticos autênticos, permanentes, ou seja, uma democracia pluralista onde os partidos voltem a cumprir o seu dever. Não o estão a fazer; uns porque entendem que a sua função não vai para lá do protesto, pelo protesto; outros porque se deixaram enredar pela clientela, compadrio e não tem a coragem de reformular toda a organização político-administrativa.

Ou… estará o dinheiro estrangeiro a influenciar a inteligência portuguesa?

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