Alquimia política

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Lucílio Carvalheiro

Orçamento do Estado. O sr. Ministro das Finanças, Professor Doutor Victor Gaspar, tem trabalhado com a maior competência este assunto e, por isso, confio no valor do seu parecer aprofundado, que nos apresenta, quer para este Orçamento Rectificativo quer para os próximos. Se não está habilitado a concretizar um orçamento anual, então temos de cingir-nos ao âmbito mais elevado da nossa Fé (escutar as ocultas), que é aliás o que com maior urgência se necessita para, responsávelmente, no dizer do maior partido da oposição, se cumpra a legislatura.

O outro projecto, do maior partido da oposição (PS), destina-se também a dar execução ao disposto pelo poder funcional, e por outro lado pode talvez considerar-se complemento do seu, recente, grande registo reformista interno, posicionando-se como partido de alternância governativa – não confundir como alternativa de política governativa.

Não queria, como pode entender-se, dar-vos, sobretudo em época de análise dos dados e dos indicadores económicos, financeiros, sociais, um encargo de leitura de substância política. Isto é caso de somenos importância em Democracia, tal qual a vivemos e não merecerá a minha atenção – é coisa para aqueles que nos aborrecem com os seus dizeres de undécima hora, sendo que nós estamos, como sempre, mais disponíveis para ocuparmos a primeira fila da 25ª hora. Mas as circunstâncias são prementes e não podemos eliminá-las nem desconhecê-las. Espero porém que, distribuidos os números, a parte que lhe caiba, meu ilustre leitor, seja suportável.

É que se o Estado se endivida 65 milhões de Euros por dia – poderia ser bem pior; é que se o desemprego se cifra já em 15% – poderia ser bem pior; é que se a recessão ultrapassa já os 3,3 %do valor do PIB – poderia ser bem pior; é que se a «gordura do Estado» continua – os que tanto queriam um Estado anoréctico, realisticamente passaram a entender que «gordura é formosura»; é que se a Troika nos diz que estamos no “bom caminho”, que legitimidade política temos nós para a contestar, atendendo que não foi sujeita a sufrágio eleitoral?

Parece-me que não será mal, embora para bem de todos nós cidadãos-pagadores, perdão, cidadãos eleitores, aludir à grande selecção dos nossos governantes.

Podemos continuar, responsavelmente, a votar nas listas do PS, porque sendo um partido politicamente cordato, mesmo que se diga que não tem uma mensagem de futuro, dispõe da possibilidade de escrever, em epitáfio, o seu passado histórico. Coisa sem importância, como sem importância é dar mais relevo ao 25 de Abril, ao 5 de Outubro, ao 10 de Junho em detrimento do 1.º de Dezembro de 1640.

Podemos, responsavelmente, votar nas listas do PSD/CDS, porque nelas reside a redenção das nossas almas eleitorais, provado que está serem capazes de transformar a “água em vinho”; ao vislumbrar-se nos indicadores, nos dados económicos e financeiros negativos, a multiplcação do pão nosso de cada dia – a minha Fé (escutar as ocultas) é fundamentada em cálculos matemáticos, coisa mais terrena e compreensível, ou seja, menos X vezes menos Y será igual a mais XY, ora como tudo é negativo, não haverá possibilidade de erro ( – x – = +).

Estou pois, no bom caminho de análise factual e realista por isso habilitado a, quando V.Exª. , meu ilustre leitor quiser, lhe dar os últimos elementos da minha candidatura numa lista partidária – se publicar um livro com as minhas crónicas avulsas serei Presidente da Câmara Municipal, Deputado à Assembleia da República, ou qualquer outro cargo político (remunerado); se, porventura, a coisa não chegar, “malho forte e feio” nos já politicamente mortos ou em mim mesmo ( cargo político exercido anteriormente e que estou certo – já esqueceu); mesmo assim, se não estiver convencido da minha bondade cívica, nada como conversarmos e um emprego para si, para a tia ou para a prima, pode contar (como promessa). Estes actos não acrescentam os meus méritos mas, estou certo, serão reconhecidos e consagrados nas próximas eleições.

Pois bem. Neste exercício de alquimia (fingimento) política a que me submeti, leva-me a cimentar a convicção que é mais gratificante escrever no tempo da undécima hora, mesmo que publicados nos “intervalos da chuva”, que amanhã engrossar as dissertações de 25ª hora dos que me presenteiam, todos os dias, com o saber dos coveiros – está morto manda-lhe terra para cima – que é , convenhamos, mais propício ao debate não debate de ideias e projectos políticos futuros mas alimento do ego (frustação?) clubistico-partidário.

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