Longos estranhos meses

Há ou não há acordo para o Plano de Estabilidade e Crescimento III? Temos ou não orçamento? É que esta semana parece que sim, mas na anterior estava assim-assim… Cavaco Silva recandidata-se ou não à presidência? Haverá ou não crise política à vista com direito a eleições antecipadas? Em Setembro? A seguir ao voto do orçamento? Só depois das eleições presidenciais?

Desde que terminaram as férias que assim tem sido. Por tudo e por nada criam-se tabus, há guerras e guerrinhas, cultiva-se a incerteza. A carga dramática e as performances que José Sócrates e Pedro Passos Coelho têm juntado a cada uma das perguntas enunciadas transformaria cada um destes episódios num enorme sucesso se fosse o caso de estarmos a falar de ficção. Não, não estamos e, perdoem, já não há pachorra. A vida política portuguesa transformou-se num folhetim de birras entre os dois maiores partidos e parece que tudo gira à volta de dois actores principais. Não são dois actores quaisquer, se Sócrates e Passos Coelho fossem actores sê-lo-iam com muitas arestas: num momento, donos e senhores do destino, heróis; noutro, reféns da ditadura dos mercados e do consenso de Bruxelas, vítimas.

O problema é que não estamos a falar de episódios em que o desfecho final seja irrelavante para a esmagadora maioria dos actores secundários, neste caso os cidadãos portugueses cada vez mais mergulhados na crise, cada vez mais pobres, cada vez mais secundários, enfim, em todo este processo. Mas alguma coisa parece estar a mudar nesta Europa de episódios e os actores secundários resolveram assumir destaque. Primeiro, na Grécia e em Espanha. Agora, e continuadamente, em França. Em Novembro, em Itália e em Portugal. A greve geral marcada para dia 24 tem todas as condições para ser a maior dos últimos anos e para ser um forte sinal de contestação e condenação das políticas de austeridade.

A situação de instabilidade em que mergulhámos parece que veio para ficar e torna-se cada vez mais evidente que clarificações só lá para depois das eleições presidenciais. Nessa altura, quando finalmente começar a clarear, José Sócrates e Pedro Passos Coelho terão de prestar provas sobre os custos adicionais que trouxeram à vida das pessoas. Nessa altura, apetecerá também fazer a pergunta, como na anedota islandesa, que o inspector policial colocou ao suspeito do crime: “pode dizer-me, por favor, onde é que esteve na noite de 15 de Setembro a 15 de Março?”. No caso de Sócrates e de Passos Coelho não poderão alegar que sempre esteve escuro e que nada viram…

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