Saúde Mental e a “obrigação de ser feliz”
“Então, está tudo bem?” A pergunta é quase sempre acompanhada pela resposta esperada: “Sim, tudo bem”, mesmo quando não se está.
Vivemos numa época em que ser feliz deixou de ser apenas um desejo. Tornou-se quase uma obrigação. Segundo as “novas regras”, é suposto dizer que se sente realizado, que gosta do que faz, que tem relações gratificantes, que cuida do corpo, que viaja, que aproveita a vida…
Mas já não basta dizê-lo: é preciso também mostrá-lo. As redes sociais vieram criar o espaço onde essa exigência se pode concretizar. Importa, pois, fotografar a viagem, o jantar, o sorriso, a família, o corpo, o sucesso… Nasce assim uma “montra” colectiva da felicidade, que leva a comparar os bastidores da própria vida com a “felicidade” que os outros escolhem mostrar. A felicidade transforma-se, assim, numa nova “unidade de medida” do sucesso individual.
As redes sociais aproximam pessoas, criam comunidades e permitem formas de comunicação impensáveis há poucas décadas. Ao mesmo tempo, expõem continuamente cada pessoa a versões selecionadas da vida dos outros, favorecendo a comparação. E a inteligência artificial veio acrescentar uma nova dimensão: já não se trata apenas de escolher o que mostrar, mas também de transformar aquilo que se mostra. Corpos, lugares e momentos podem ser modificados, afastando a imagem exposta da realidade que lhe deu origem. Perante uma realidade cada vez mais construída para parecer feliz, é natural que surja a pergunta:
“Porque é que a minha vida não é assim?”
Nada há de errado em desejar ser feliz. O problema começa quando alguém acredita que deveria sê-lo permanentemente, pois a vida não funciona assim. Há perdas, separações, fracassos, conflitos, doenças, dúvidas, medos… A tristeza não é o contrário da saúde mental. Tal como a ansiedade ou a frustração, faz parte da experiência humana.
Ser emocionalmente saudável não significa estar permanentemente alegre, mas ser capaz de experimentar e aceitar diferentes emoções, mesmo quando são desagradáveis. Contudo, assiste-se hoje a uma diminuição da tolerância ao sofrimento. Talvez aqui resida um dos paradoxos do tempo atual: quanto mais a felicidade se transforma numa meta permanente, mais facilmente cada momento de tristeza é vivido como um fracasso. E ao sofrimento acrescenta-se outro: pensar que não deveria estar a senti-lo.
Talvez seja necessário devolver à felicidade um pouco da sua liberdade. Ela não é um estado permanente, nem uma fotografia para publicar. E saúde mental não significa viver sem problemas, nem ter de se sentir feliz todos os dias. Significa também ser capaz de manter — ou recuperar — o equilíbrio quando a vida o perturba, sem transformar a felicidade numa obrigação.
