Prémio Dom Sesnando Quanto tempo dedicamos a compreender uma cidade?
Quando intervimos num centro histórico, estudamos um edifício: a sua história, os materiais, a gramática arquitetónica, a relação com os edifícios vizinhos, a escala da rua, a luz e os espaços públicos. Procuramos compreender a narrativa construída ao longo de séculos e preservar a harmonia do conjunto, porque sabemos que um edifício não existe isoladamente. E se aplicássemos às pessoas o mesmo cuidado com que olhamos para o património? E se, antes de reduzirmos alguém à sua nacionalidade, religião ou cultura, procurássemos conhecer a sua história, as suas referências e as relações de pertença que construiu? Tal como uma cidade é mais rica quando compreendemos a relação entre os seus edifícios, também uma sociedade pode ser mais rica quando compreendemos as relações entre as pessoas que a constituem. A interculturalidade não significa apagar diferenças, mas conhecê-las, criando condições para que identidades diferentes possam coexistir, dialogar e produzir algo novo.
É neste contexto que proponho a criação do Prémio Dom Sesnando, uma distinção anual destinada a reconhecer uma pessoa ou instituição que se tenha destacado na promoção da interculturalidade e do diálogo entre culturas e tradições religiosas. E porque Dom Sesnando não foi apenas uma figura de Coimbra, mas de um território muito mais vasto, faria sentido que o prémio tivesse dimensão regional e fosse promovido pela CIM Região de Coimbra, distinguindo personalidades ou instituições com atividade na região.
A escolha poderia caber a um conjunto de cidadãos representativo das diferentes realidades regionais: universidades, escolas, associações, instituições culturais, comunidades religiosas, organizações sociais e outras entidades da sociedade civil. Pessoas diferentes sentadas à mesma mesa para reconhecer quem constrói pontes.
Dom Sesnando Davides foi um moçárabe cuja vida atravessou diferentes mundos culturais e religiosos. Viveu no mundo islâmico e exerceu funções na corte de Sevilha antes de assumir o governo de Coimbra. A sua época foi marcada, nesta região, pela coexistência de cristãos, moçárabes, judeus e muçulmanos. Não precisamos de idealizar a Idade Média para reconhecer nessa história uma realidade fundamental: as identidades nunca foram muros absolutos; também foram lugares de passagem, contacto e influência mútua. Talvez o primeiro Prémio Dom Sesnando pudesse ser atribuído, a título póstumo, a outro sonhador: Domenico Lenarduzzi, uma das figuras fundamentais na criação do programa Erasmus. O seu sonho de aproximar jovens através do contacto entre culturas transformou-se numa das maiores experiências europeias de mobilidade, conhecimento e encontro.
O valor pecuniário do prémio poderia ser entregue à AMI, através do Centro Porta Amiga de Coimbra, pelo trabalho desenvolvido junto de pessoas em situação de vulnerabilidade, incluindo cidadãos de diferentes nacionalidades. Seria transformar reconhecimento em solidariedade e ajudar a recuperar condições de vida e dignidade. Memória, encontro e solidariedade, talvez seja esta a verdadeira grandeza de uma cidade ou de uma região. Não apenas o território, os edifícios ou a economia, mas a diversidade das pessoas a que a habitam e capacidade de transformar em conhecimento, criatividade, dignidade e felicidade coletiva. O Prémio Dom Sesnando poderia ser uma forma de a Região de Coimbra afirmar essa grandeza.