Opinião: O habitus e os “monstros” do Natal
Há mais de meio século, o sociólogo francês Pierre Bourdieu apresentou-nos o conceito de habitus como instrumento para descrever um conjunto de disposições socialmente internalizadas, que desenvolvemos ao longo da vida e que influenciam as nossas perceções e ações. Atuando como uma gramática social enraizada, o habitus orienta muitas das nossas práticas e interações sociais, frequentemente sem que tenhamos clara consciência disso.
Entre as suas múltiplas aplicações, o conceito de habitus é útil para explicar algumas práticas incoerentes e aparentemente incompreensíveis.
Em Coimbra, como em muitas outras cidades portuguesas, é comum observar o abandono de resíduos volumosos na via pública. Vulgarmente conhecidos como “monos” ou “monstros”, o problema torna-se especialmente crítico nesta altura do ano, quando o rendimento extra proporcionado pelo subsídio de Natal, aliado às promoções das principais lojas comerciais, incentiva a substituição de móveis e eletrodomésticos. Colchões, frigoríficos ou sofás abandonados nas ruas e passeios tornam-se um problema evidente, prejudicando a paisagem urbana e colocando em risco a segurança rodoviária e o meio ambiente.
As causas deste hábito pernicioso podem ser atribuídas à ausência de serviços adequados no passado. Sem alternativas à disposição, as pessoas foram-se habituando a abandonar os resíduos na via pública, até que essa prática se tornou um comportamento recorrente e socialmente aceite. Com o tempo, no entanto, as autarquias começaram a disponibilizar os serviços necessários. Em Coimbra, por exemplo, a Câmara Municipal oferece, há vários anos, a recolha gratuita ao domicílio, com agendamento por telefone.
A persistência dos “monstros” perante a existência de um serviço gratuito e eficiente leva-nos a refletir sobre a complexidade das políticas públicas. O desafio não é apenas fornecer serviços tecnicamente adequados, mas integrá-los de forma eficaz nas normas sociais enraizadas na comunidade.
Apesar das campanhas de sensibilização promovidas pela autarquia, a adoção de práticas mais responsáveis e conscientes na gestão dos “monstros” continua distante de se tornar uma realidade. Alterar hábitos não é uma tarefa simples. Exige tempo, esforço e um compromisso sustentado por parte de um conjunto diversificado de atores. Urge investir em iniciativas mais criativas e inclusivas, capazes de alcançar diferentes faixas etárias e contextos sociais. Simultaneamente, torna-se indispensável reforçar a aplicação das sanções previstas na lei, garantindo que as penalizações sirvam como um incentivo eficaz para promover a mudança de comportamento. Deve-se apostar numa educação ambiental contínua e transformadora, capaz de, a médio ou longo prazo, tornar socialmente inaceitável uma prática que hoje, para muitos, ainda é vista como legítima.
