Opinião: Cozinha nacional? Feita por emigrantes
A nacionalidade é uma invenção decorrente da ocupação do território. Há nove séculos descobrimos Portugal e o ser português. Pela cultura e pela cozinha acrescentámos valores de identidade. Falamos de cozinha portuguesa como parte da alma nacional, dos restaurantes que são pilares, das cozinheiras e cozinheiros que tratam o sabor português como algo que se herdou.
Mas será? Não quero ser indiscreta, mas quem visita as cozinhas de muitos restaurantes sabe que, em muitas situações, quem assegura o serviço são pessoas vindas de outros continentes. América Central é do Sul, África, Ásia.
Diz quem contrata, que são pessoas disponíveis, aguentam o trabalho e têm o dom do tempero.
Na sala, ninguém percebe que aquele prato, símbolo do receituário nacional, foi feito por mãos ditas ‘estrangeiras’. Na sala, apenas se elogia o sabor, a importância do restaurante e as mãos de quem está na cozinna. Nem reparamos de quem são essas mãos.
É claro que, perante as conversas acerca da presença de emigrantes, já não somos tão polidos.
Contudo, será que temos noção de que são emigrantes que produzem muitos dos produtos e das refeições que comemos?
É claro que é importante pensar a política de emigração, mas quando quisermos divagar sobre o assunto, talvez seja melhor ver quem está na cozinha, quais as mãos que nos alimentam. Se calhar são as mesmas que, numa situaçao distinta, sentimos nojo e não queremos ver.
Só falo disto porque penso nas mãos invisíveis, seja qual for a nacionalidade a que pertencem. O resto é a reflexão que se impõe, sem perder a noção das virtudes e das misérias que a emigração impõe, a quem acolhe e a quem se muda.
