Óbidos
A vila de Óbidos cresce estas duas semanas com nomes memoráveis, com eventos imperdíveis, com uma força que vem das letras, que desabrocha das árvores convertidas em papel, para ler e guardar em lombadas que os filhos devem encontrar quando gatinham, quando empurram as parafernálias que os ajudam a andar. Os livros convertidos em lugares de encontro com o crescimento. Sábado vai o prémio Nobel recente que me parece mais próximo de Saramago.
O escritor Jon Fosse nascido em 29 de Setembro, há 67 anos, abrilhantará Óbidos para falar dos seus livros pretéritos e futuros. Não posso estar, mas adorava ir.
Óbidos é um exemplo de municipalidade activa, com eventos culturais diversos, com uma panóplia de atracções que atrai milhares de pessoas diariamente.
Têm um anfiteatro magnífico para a ópera, não descuidam as feiras de velharias e de artesanatos. A feira do livro que agora começa é um evento mundial, um tempo de glorificação da literatura que em Portugal só tem paralelo com o festival de banda desenhada na Amadora quando falamos de livros.
O exemplo de Óbidos, porém, não é seguido neste Portugal entorpecido pela mais simplória actividade das Câmaras municipais, empenhadas em feiras medievais e festas de gritaria tonitruante que acaba o sossego da maioria em prol dos foliões e algazarras.
Há dois ou três festivais de música clássica a seguir, alguns encontros de jazz, mas a maioria das apostas estão no discurso rotatório em torno do pimba e do açúcar. Festivais de doçaria deviam ser poucos e muito específicos para serem um tempo de negócio e de escolhas.
Passar os dias mergulhados em doçaria conventual é um problema de saúde pública. Por tudo o afirmado atrás sou um defensor de uma política de gestão colectiva, de um entendimento entre municípios para menor gasto público em inutilidade e em sofisticação da oferta. O que mostramos ou damos a conhecer é também cultura e ensino.
O Portugal interior devia criar roteiros de visita às fortificações, oferecer passeios guiados para espantar os visitantes da beleza ofuscante que ali existe.
