Opinião

Milhões e Minutos…

03 de outubro de 2026 às 08 h45

Abrimos os jornais e lá estão os milhões. Milhões para a alta velocidade, milhões para o novo aeroporto, milhares de milhões do PRR, outros tantos do Portugal 2030. A escala é tão grande que quase deixámos de a entender. O PRR teve uma dotação de 22,2 mil milhões de euros; o Portugal 2030, de 23 mil milhões. O futuro aeroporto Luís de Camões está estimado entre 7,9 e 8,9 mil milhões.

Também nos habituámos às notícias sobre os grandes projetos que emperram. Segundo Frederico Francisco, adjunto do Ministério das Infraestruturas no Governo que lançou o atual projeto, quatro anos depois do lançamento, ainda não há obras da linha de alta velocidade entre Porto e Lisboa no terreno, um atraso provocado, principalmente, pelo “consórcio empreiteiro ter decido pôr-se a inventar com a solução técnica”. (RR)
Não desprezo estas obras nem estes fundos. Pergunto apenas por que razão um país capaz de mobilizar tais somas continua a ter tanta dificuldade em organizar as coisas pequenas de que depende um dia normal.

Para quem vive fora de uma sede de concelho, uma consulta pode começar na véspera, com a pergunta: «Quem me leva?» Seguem-se os quilómetros, a espera, a consulta e o caminho de regresso. Vinte minutos diante do médico podem exigir uma manhã inteira fora de casa. Se não houver carro ou alguém disponível para conduzir, a distância mede-se também em favores pedidos e dias de trabalho perdidos.

Os dados dão corpo a esta experiência.

Num estudo publicado este ano, a Entidade Reguladora da Saúde classificou como tendo baixo acesso potencial aos cuidados hospitalares 50,3% da população abrangida pela ULS da Guarda e 34,2% da população da ULS de Castelo Branco. A média do continente era 14,2%.

E morar junto a um grande hospital não resolve tudo. No primeiro semestre de 2025, 65,9% das primeiras consultas hospitalares realizadas na ULS de Coimbra ultrapassaram o prazo máximo garantido. Na ULS de Castelo Branco foram 28,1%. A geografia impõe uma espera; a organização dos serviços pode impor outra.
Talvez devêssemos acrescentar uma unidade de medida aos relatórios sobre investimento público: o tempo devolvido às pessoas. Quantas viagens evitou uma obra? Quantas consultas chegaram a tempo? Quantos cidadãos conseguiram tratar de um assunto sem pedir boleia ou perder um dia? Um país pode executar milhares de milhões e continuar a exigir demasiados minutos…

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