Jogar ao “Risco”
Criado em 1957 por Albert Lamorisse, o jogo de tabuleiro “Risco” ensinou gerações a conquistar territórios, mover exércitos e eliminar adversários com base numa lógica simples: vence quem acumula mais poder e controla mais áreas estratégicas. Sete décadas depois, a metáfora nunca foi tão desconfortavelmente atual.
A recente incursão dos Estados Unidos na Venezuela, justificada por discursos de segurança e defesa da democracia, expõe objetivos reais bem menos nobres: controlo geopolítico, influência regional e interesses energéticos. Pouco importa o enquadramento jurídico ou a so berania de um Estado. No tabuleiro global, a Venezuela surge como mais uma peça vulnerável, rica em recursos e politicamente fragilizada.
Já assistimos ao mesmo padrão na invasão da Ucrânia pela Rússia. Moscovo fala em segurança, história e identidade; na prática, move exércitos para garantir zonas de influência, acesso estratégico e afirmação de poder perante o Ocidente. O direito internacional, consagrado em tratados e na Carta das Nações Unidas, revelou-se impotente perante tanques, mísseis e vetos no Conselho de Segurança.
E Taiwan? A ilha vive como território cercado por dados, frotas e ameaças veladas da China. Pequim encara uma eventual invasão não como agressão, mas como jogada inevitável para completar “a grande China” no tabuleiro asiático, garantindo supremacia tecnológica e militar.
No tabuleiro do “Risco”, não há árbitro imparcial nem punição para quem viola regras: há apenas vencedores temporários e derrotados permanentes. No mundo real, deveria ser diferente. Mas a prática demonstra que o direito internacional é frequentemente letra morta quando colide com o pragmatismo brutal das grandes potências.
No final, os povos tornam-se peões descartáveis num jogo jogado por poucos. E a pergunta que fica é inquietante: se o mundo continua a ser governado como um tabuleiro de “Risco”, quem terá coragem de virar a mesa?..
