Espetáculo no TAGV junta imigrantes em palco à procura de uma “Voz Comum”
Fotografia: DR
O Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV), em Coimbra, recebe a estreia, a 05 de outubro, de uma peça que junta imigrantes de sete nacionalidades diferentes à procura de uma “Voz Comum”, num espetáculo que não se coíbe de falar de amor.
Cada um dos participantes em palco, munidos de um pequeno guarda-chuva, vai atirando palavras em português para o ar, com mais ou menos dificuldade, repetidas pelos restantes: “Avó, avô”; “Pai, pão, pau”; “Es-pe-ci-a-ri-as”.
Pelo espetáculo, surgem memórias – tanto de castelos de neve como de areia -, muitas delas da infância, por entre vidas que chegaram a Coimbra e que fizeram dela também a sua morada.
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“Há meses em que a cidade é uma placenta enorme. Filhos de tanta gente à espera de nascer de novo!”, ouve-se na peça, onde um piano acompanha os diferentes momentos.
São 11 pessoas de sete nacionalidades distintas (Irão, Israel, Estados Unidos, Bielorrússia, Ucrânia, Rússia e Itália) que dão corpo ao espetáculo “Voz Comum”, uma criação da Estrutura Baldia e que surge de um desafio do TAGV àquele coletivo conimbricense e ao Centro Porta Amiga da AMI, que ministra aulas de português para estrangeiros desde 2022.
Para o diretor do TAGV, Sílvio Santos, apesar de o espetáculo ser apresentado a 05 de outubro, no âmbito da Festa da Praça da República, o mais importante foi todo o caminho até esse momento, o trabalho e a crença de que, mesmo não se partilhando o mesmo idioma ou origem, pode-se “falar de uma voz comum”.
A peça, cujos primeiros ensaios começaram no final de abril, “é como um iceberg em que se vê a parte de cima”, sublinha.
“Eu acho que esta capacidade de unir pessoas é fortíssima e eu gostava que conseguíssemos todos transmitir ao mundo este colo, este abraço, este amor e esta capacidade de vivermos em conjunto”, diz Paulo Pereira, que em conjunto com Ana Goulart, do Porta Amiga, também sobe a palco, com o restante elenco.
Para Carolina Costa Andrade, da Estrutura Baldia, o espetáculo permite “também dar a oportunidade de este grupo de pessoas poder inscrever as suas histórias naquilo que é o espaço público e que muitas vezes lhes é vedado”.
O amor, conta, também surge nos laços que se criaram. No palco onde irão apresentar a peça, houve almoços e festas de aniversário, num processo o mais horizontal possível, aclara.
Matilde de Fachada, que assina a encenação, afirma que houve uma partilha “muito grande” ao longo de todo o processo – de histórias, mas também de música, comida, vida, cultura -, em que houve sempre espaço para a escuta com tempo, num mundo em que “tudo acontece muito rápido”.
Alena Kulahina, da Bielorrússia, está rendida à experiência em que aceitou participar sem pestanejar assim que lhe foi lançado o desafio na Porta Amiga, onde está a ter aulas de português desde 2024, quando chegou a Coimbra.
“O resultado de tudo é muito pessoal para cada um de nós. As nossas deixas são reflexos das nossas histórias que fomos partilhando uns com os outros”, explica.
Para Alena, de 32 anos, a criação do espetáculo permitiu sentir-se mais ligada à cultura, mas também à própria cidade.
“A conexão [com Coimbra] começou logo desde início, mas cresce e cresce e cada dia é mais forte”, afirma a bielorrussa que já tem uma palavra preferida em português: “coração”.
Em declarações à agência Lusa, Pratibha Agdern admite estar rendida ao trabalho da Estrutura Baldia, pela forma “natural e delicada” como foi abordando e trabalhando diferentes temas.
A mulher de 75 anos, que trocou Nova Iorque por Coimbra, diz que nestes meses sente que está “mais aberta e mais livre como pessoa”, com o projeto a ajudá-la a não se torturar por não dizer tudo certo em português.
Ao olhar agora para os meses de ensaios, Pratibha também salienta a ideia de “voz comum” que dá título ao espetáculo: “São pessoas de diferentes países, mas depois temos todos as mesmas emoções, as mesmas vontades, os mesmos sonhos”.
O projeto, salienta, “é a semente de qualquer coisa que vai crescer em todos nós”.