Coimbra

“A profissão farmacêutica está plenamente preparada para assumir mais responsabilidades no Serviço Nacional de Saúde”

26 de setembro de 2026 às 08 h10
Bastonário da Ordem dos Farmacêuticos, Hélder Mota Filipe | Fotografia: DR

Entrevista completa ao bastonário da Ordem dos Farmacêuticos, Hélder Mota Filipe, no âmbito do Dia Nacional do Farmacêutico. O DIÁRIO AS BEIRAS publica hoje um especial para assinalar esta efeméride. 

De que forma é que a Ordem dos Farmacêuticos pretende assinalar o Dia Nacional? Que atividades vão realizar?
O Dia Nacional do Farmacêutico é uma tradição com 37 anos, celebrada desde 1989. Desde então, a Ordem dos Farmacêuticos assinala a efeméride com a realização de várias atividades e iniciativas marcadas pelo convívio e confraternização entre colegas e pela valorização do papel destes profissionais de saúde na sociedade. Esta valorização reflete-se em todas as diversas áreas de atividade, seja nas farmácias comunitárias, nos hospitais, nos laboratórios de análises clínicas, na indústria farmacêutica, na distribuição, na investigação ou nos assuntos regulamentares. As comemorações do Dia do Farmacêutico são organizadas todos os anos, de forma rotativa, pelas três Secções Regionais da Ordem e envolvem várias outras ações em diversos pontos do país, muitas das quais promovidas por farmacêuticos a título individual ou por outras organizações e associações setoriais. Este ano, a Sessão Solene comemorativa é organizada pela Secção Regional do Norte e decorre no Porto, no Palácio da Bolsa. Durante a cerimónia, vamos atribuir a Medalha de Honra da Ordem ao distinto farmacêutico Miguel Silvestre, a título póstumo, que ao longo do seu percurso profissional e académico muito contribuiu para dignificar e valorizar a profissão, tendo liderado o nosso Conselho Farmacêutico Nacional e desempenhado também cargos associativos de relevo no setor. Atribuímos igualmente a Medalha dos 50 Anos de profissão e o Prémio Sociedade Farmacêutica Lusitana aos melhores alunos finalistas do Mestrado Integrado em Ciências Farmacêuticas. Para enriquecer o programa, teremos este ano como conferencista convidado o Dr. António Vitorino, presidente do Conselho Nacional para as Migrações e Asilo, que apresentará a Conferência Magistral “Desafios da Cooperação Internacional na Saúde à Luz da Pandemia”.

Que mensagem é que o bastonário pretende deixar neste dia?
A principal mensagem que pretendo deixar neste Dia do Farmacêutico divide-se em duas grandes reflexões: uma dirigida para dentro da nossa profissão e outra orientada para o exterior, para os decisores políticos e para a sociedade. Para os farmacêuticos, a mensagem é de enorme confiança no futuro. Somos hoje uma classe mais jovem, altamente qualificada, diferenciada e com uma forte presença internacional. Esta evolução exige que também a Ordem se modernize, desburocratizando processos, apostando na transição digital e reforçando a qualidade do nosso exercício profissional, sempre ancorados na produção científica e nas normas de boas práticas. Para o exterior, a mensagem é muito direta: a profissão farmacêutica está plenamente preparada para assumir mais responsabilidades no Serviço Nacional de Saúde. Contudo, para que isso aconteça, o sistema tem de estar preparado para utilizar as competências que já existem. Isto significa avançar de forma decidida com novos modelos de cuidados, nomeadamente através da intervenção farmacêutica nas situações clínicas ligeiras e na consolidação da dispensa de medicamentos hospitalares em proximidade. O objetivo não é substituir outros profissionais, mas sim organizar melhor os cuidados, reorganizar equipas e libertar a capacidade clínica dos hospitais e centros de saúde para as situações de maior complexidade. Queremos, ainda, sublinhar que o medicamento e o setor farmacêutico não podem continuar a ser olhados exclusivamente através da coluna da despesa. São, na verdade, um investimento fundamental que previne internamentos, prolonga a vida e gera economia, investigação e emprego altamente qualificado para o país. O nosso apelo é para que o sistema de saúde seja desenhado em torno das necessidades das pessoas, utilizando toda a proximidade, capacidade científica e compromisso ético dos farmacêuticos para ajudar a construir um futuro mais sustentável para a saúde em Portugal.

Quais são os principais desafios do setor para os próximos anos?
O principal desafio para os próximos anos reside na capacidade de assegurar a sustentabilidade e a adaptação do Serviço Nacional de Saúde perante uma profunda transformação demográfica e tecnológica. Enfrentamos o desafio da inovação terapêutica, com as terapias avançadas, da medicina de precisão e da inteligência artificial. Esta realidade obriga não apenas a uma atualização científica constante, mas também a um forte compromisso ético e bioético, garantindo que a tecnologia e a inovação não avançam separadas da responsabilidade clínica. A par disto, temos o desafio crítico da valorização e retenção de  talento, sendo necessário assegurar a integração na carreira dos especialistas que estão agora a concluir o programa da Residência Farmacêutica, evitando a perda de profissionais altamente qualificados. Outro desafio central é a reorganização dos cuidados através de uma verdadeira colaboração interprofissional, garantindo que as competências de cada um são plenamente utilizadas. Isto implica consolidar novos serviços, como a intervenção farmacêutica em situações clínicas ligeiras e a dispensa de proximidade, o que exige necessariamente resolver a questão do acesso adequado e rastreável à informação clínica dos utentes. Por fim, num plano mais macro, temos de ser atores ativos na atual revisão da legislação farmacêutica europeia, defendendo de forma estratégica a segurança das cadeias de abastecimento, o acesso atempado à inovação e a mitigação das ruturas de medicamentos que tanto afetam o dia a dia dos cidadãos.

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