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A Casio fx-3900P e a IA

02 de abril de 2026 às 08 h45
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Em 1990, para suportar os infinitos cálculos solicitados na licenciatura em Engenharia Informática, com muitas Unidades Curriculares no Departamento de Matemática da Universidade de Coimbra (e ainda me recordo dos nomes de todas), muitas outras no Departamento de Engenharia Eletrotécnica com Matemática aplicada à Engenharia (com saudades, recordo Teoria dos Sistemas, sem dúvida uma das minhas preferidas), comprei uma Casio fx-3900P. Um investimento tão dispendioso, como necessário. Documentei-me cuidadosamente para garantir que essa calculadora não violava qualquer regra definida pelos docentes, porque, adquirindo um equipamento assim, não poderia correr o risco de não o usar. Usei intensamente durante toda a minha formação de Licenciatura. Na verdade, só me voltei a recordar da Casio quando o meu filho também a usou e, agora, neste reboliço de extrema urgência de políticas necessárias para regular o uso da Inteligência Artificial pelos estudantes do Ensino Superior. O que foi definido quanto ao uso das máquinas de calcular, embora apresentado repetidamente como uma disrupção, não tem paralelo com a voracidade da IA.

A FCT – Fundação para a Ciência e Tecnologia disponibilizou acesso gratuito à IAedu a todos os estudantes e docentes do Ensino Superior, em novembro de 2025, há 5 meses atrás. A IAedu é uma plataforma desenvolvida pela FCCN – Fundação para a Computação Científica Nacional, que “democratiza o acesso à IA em Portugal”. Se ainda alguém não tinha percebido que a IA é mesmo para todo o Ensino Superior e para ser utilizada em tudo, então esta plataforma esclareceu: “o acesso aos diversos modelos de linguagem de larga escala (LLM) de uma forma democratizada, visa capacitar estudantes, investigadores e professores com uma ferramenta para o aumento da produtividade”, lê-se no site iaedu.pt.

O que falhou então e porque é que estudantes e docentes continuam a referir-se à necessidade de definir políticas de uso da IA de modo a que continue a existir espírito crítico, boas ideias, a justiça na aprendizagem e no uso do conhecimento? É que essas regras não são, nem podem ser, gerais. Não é possível criar, à semelhança do que se fez com as máquinas de calcular, uma categoria que se possa usar e outra que não se possa. Essa política, ou teria de ser revista todos os meses, ou arriscar-se-ia a tão inútil como impraticável. Desta vez, não há receita milagrosa. Cada docente, dando uso à sua autonomia pedagógica, tem de saber o que se pode e não pode fazer nas Unidades Curriculares que leciona, e indicar as regras.

O que já devia ter acontecido, em vez de “continuarmos a reparar a reparar o motor com o avião em andamento”, é que todos devíamos ter parado o que partilhamos com os estudantes, colocar no lixo a maioria dos elementos que estão preparados, de modo a repensarmos, em cada uma das nossas especialidades, o que mudou e ajustar à nova realidade da IA. Acredito que, depois desse ajuste, poucos elementos serão mantidos entre slides, testes ou exames convencionais.

Se quisermos comparar, poderá ser parecido – embora em velocidade vertiginosa – com a transição do acetato escrito manualmente e do retroprojetor para o uso de slides em PowerPoint. Só que, se aí, houve uma década para criar o hábito, agora há apenas umas semanas, o tempo que temos para preparar aulas para o próximo ano letivo. É duro, eu sei, mas usemos a técnica “Band-Aid”: “puxa rápido, dói menos”.

Texto de:Isabel Pedrosa

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