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Eleições e prisões

02 de novembro de 2026 às 10 h15

Uma democracia precisa de garantir que se pode perder uma eleição e que ninguém está acima da lei. O Brasil tem de conseguir fazer conviver estas duas condições. A reeleição de Lula, com 51,79% dos votos, resolveu quem governa. Não resolveu a divisão do país. Quase metade dos eleitores escolheu Flávio Bolsonaro. Essa metade não desaparece quando termina a contagem.

Nos anos em que vivi no Brasil, vi a política atravessar amizades, empresas e famílias. Bastava um nome para a conversa deixar de ser sobre ideias e passar a ser sobre o carácter de quem as defendia. É neste ambiente que eleições e prisões formam uma combinação explosiva. Lula esteve preso e regressou à Presidência. Jair Bolsonaro foi presidente e acabou condenado por tentativa de golpe.

Os casos não são equivalentes e claro que os diferentes fundamentos jurídicos importam. Mas, numa sociedade polarizada, cada campo tende a ver perseguição quando a justiça chega aos seus e coragem quando chega aos outros.

O risco é perder uma eleição passar a ser vivido como uma ameaça à sobrevivência. Quando isso acontece, qualquer meio para evitar a derrota começa a parecer aceitável. A saída exige justiça independente e garantias de defesa. Exige também vencedores que governem para todos e derrotados que respeitem as urnas. Impunidade não pacifica. Vingança também não.

O Brasil precisa de discutir emprego, segurança e educação com mais intensidade do que discute o destino judicial dos seus líderes. Uma democracia tem de permitir perder hoje e voltar a disputar amanhã. Quando a prisão do adversário se torna a principal esperança política, a próxima eleição deixa de ser apenas uma escolha. Torna-se um rastilho.

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