IC6: um itinerário para consolidar uma região metropolitana?
Há cerca de trinta anos que se espera pelo prolongamento do IC6. No eixo Tábua / Oliveira do Hospital / Seia, a ligação tarda, com consequências quotidianas. A obra deve avançar. Sem dúvida. Mas importa perguntar: para que projeto da Região Metropolitana de Coimbra (RMC) queremos que o IC6 contribua? Que urbanidade queremos para esta região?
A construção do IC6 é urgente, tal como é necessário planear o futuro desta região. A urgência desta construção e a responsabilidade de pensar o futuro da RMC pertencem ao mesmo tempo: o presente. Pensar esse futuro não é, pois, uma condição para construir a estrada, nem pode servir de pretexto para novos adiamentos. Devemos exigir a estrada e, desde já, discutir a vida que queremos tornar possível com ela.
Essa discussão deve partir dos lugares que o IC6 irá aproximar: Coimbra e os concelhos mais a nascente, até Seia e Gouveia. Nestes territórios, há pessoas que trabalham e estudam, empresas que produzem, associações ativas e instituições que prestam serviços. Não falamos de um “espaço vazio” que espera que o prolongamento de uma estrada lhe confira existência, mas de atividades e relações que importa reforçar.
O IC6 não virá inaugurar a vida neste território. Irá aliviar obstáculos à vida que já existe, facilitar deslocações e tornar menos penoso e oneroso o acesso a serviços. Para uma família ou uma empresa, não encurtar distâncias significa tempo perdido, custos acrescidos ou oportunidades perdidas. Por isso, reduzir obstáculos justifica a obra por si só, sem precisarmos de prometer que irá estancar a perda de população.
É aqui que a reivindicação do IC6 se cruza com a discussão de um projeto de urbanidade: como é que a melhoria na acessibilidade será transformada em condições para satisfazer necessidades, reforçar ou estabelecer relações e criar novas oportunidades de vida? Uma viagem mais rápida tem valor, mas o que mais importa é o que ela permite fazer. Que serviços se tornam mais acessíveis? Que relações de trabalho, formação ou cooperação podemos desenvolver a partir dos lugares onde vivemos?
Uma região metropolitana não se faz apenas de distâncias curtas. Faz-se de relações que permitem desenvolver atividades em diferentes lugares. Coimbra tem um papel incontornável na RMC, mas a maior proximidade à cidade não deve esgotar a ambição regional. Então, como pode essa centralidade contribuir para fortalecer outros centros urbanos da região? E que relações é importante desenvolver entre eles?
Perguntar pelo contributo do IC6 para consolidar a RMC leva-nos, assim, a discutir a urbanidade que queremos construir neste território. Este primeiro texto parte da estrada e das possibilidades que ela pode abrir. No próximo, importa perguntar que região queremos consolidar, a partir dos seus lugares e das relações entre eles. O último abordará a cultura do território e a participação necessárias para construir um compromisso regional.
Uma estrada pode aproximar lugares. Um projeto de urbanidade pode aproximar os seus futuros.

