Uma avenida, três caminhos e muitas memórias
A Avenida Emídio Navarro reúne três vias de comunicação que, até meados do século XX, aproximavam três formas de transporte: o rio, o caminho de ferro e a estrada.
A Barca Serrana era um sinal de um mundo antigo que teimava em permanecer. Por aqui chegava a carqueja que aquecia os fornos dos oleiros, das padeiras e de outros ofícios, como testemunham os nomes das ruas da Baixinha. As barcas regressavam Mondego acima carregadas de roupa suja dos universitários, lavada e posta a corar nas ínsuas do rio. A viola toeira animava estas viagens, por vezes até à Figueira da Foz, levando louça e trazendo sal e peixe.
Poucos conhecem estas histórias. Talvez alguns as descubram um pouco no Parque Manuel Braga, lendo a inscrição junto à barca ali imobilizada pelo município.
O projeto Ró da Barca, dinamizado pelo operador Serranas do Mondego, atrai turistas e curiosos, preservando esta memória. O proprietário lamentou-me a falta de apoio das instituições que devem preservar a memória da cidade e promover o turismo, apesar dos projetos apresentados. Quantas pessoas guardarão fotografias destas barcas? Quantos serão descendentes de barqueiros e lavadeiras? O Rancho Folclórico Rosas do Mondego preserva a memória das lavadeiras e a ligação entre o rio, o trabalho e a cultura popular.
Chegou o caminho de ferro, obra de engenharia que venceu desníveis com túneis e pontes. Mas quem foram os homens que a construíram? Quantos morreram ou ficaram feridos? Na Portela, trabalhadores ficaram alojados junto da hospedaria onde também terão permanecido engenheiros dos estudos preparatórios.
Formou-se ali uma comunidade ferroviária, num bairro que, segundo a memória local, esperou décadas por ruas alcatroadas e saneamento básico. Celebramos a obra, mas quanto sabemos dos operários pobres que a tornaram possível? A linha projetada até Arganil nunca passou de Serpins.
A Estrada da Beira, via estruturante, foi o caminho por onde partiram aqueles a quem já não bastava uma sociedade rural de raízes antigas nem uma industrialização pobre em oportunidades e valor acrescentado. Fugiam à miséria, à falta de liberdade e à guerra colonial. Partiam com N.ª Sr.ª de Fátima na mala; regressavam com N.ª Sr.ª de Lourdes e o Ricard Pastis. A vida de muitas famílias melhorou e transformaram aldeias. A vivenda nova tornou-se sinal de uma vida conquistada longe da terra natal. Depois de muitas horas ao volante, os emigrantes enfrentavam curvas exigentes, por vezes em carros potentes e com pouca experiência de condução. Muitas famílias ficaram destroçadas por acidentes que interromperam regressos tão esperados, destruíram sonhos e, por vezes, causaram perdas irreparáveis.
Coimbra era central: aqui se cruzavam diferentes vias de comunicação. A centralidade construída ao longo de séculos, desde as antigas estradas romanas, também alimentou a vontade de criar, inovar e fazer acontecer. Mas continuamos a esquecer os que fizeram, os que suaram, os que construíram caminhos e ergueram obras.
Precisamos de um espaço virtual onde possamos acolher os testemunhos destas epopeias as obras, as viagens, as partidas e os regressos, relacionando-os entre si e com os lugares que ainda guardam as marcas destas memórias. Um espaço que devolva a palavra aos que fizeram e aos que sonharam. Preservar esta memória coletiva, ligando as pessoas aos lugares e o passado ao presente, é também uma forma de dizermos, do coração, a nossa Coimbra.

