Ver os Budas em Bamyan (parte 3) Afeganistão-2024
Começa-se a trabalhar cedo nos campos à volta de Bamyan. Estamos em agosto, a época das colheitas por excelência, e o calor aperta a partir de meio da manhã. Da janela do hotel acompanho os trabalhos que muitos camponeses já por ali levam a cabo há mais de duas ou três horas.
A zona fértil, para onde confluem as várias encostas de um território tão montanhoso, já abandonou a sua tonalidade esverdeada para agora se vestir de um extenso manto amarelado que marca esta época seca. O meu amigo Naveed contou-me que, antes da guerra, o espaço em frente dos Budas era o centro urbano por excelência, mas a destruição que o ódio trouxe consigo reduziu esse espaço a um monte de escombros. A nova cidade seria agora erguida um pouco mais afastada dali, quiçá com o objetivo de assim a população evitar olhar diariamente para a enorme cicatriz que ficou cravada na montanha a partir de onde os Budas davam sinal da identidade deste povo, os hazara.

Chego a um enorme campo que me separa uma centena de metros do dito ex-libris deste território. Saio do caminho que para lá me levava para ir ao encontro de dois homens de idade que ali se encontravam a separar os cereais da palha que para ali ficaria, parte dela já a servir de manjar para uma vaca que assim começaria a jorna com a barriga bem cheia. Cada um ia ensacando o sumo do seu trabalho para que uma terceira pessoa, mais nova, carregasse tudo para uma carrinha.
Boa parte da produção iria para abastecer a capital, que ficava tão longe dali. Apesar de todas as adversidades, o Afeganistão ainda vai tendo, à sua maneira, um mercado interno, pois os campos vão alimentando as grandes cidades. E aqueles homens que tanto suavam para ganhar a vida em nada se reviam naqueles que, em Cabul detinham o poder. “Esses são os pashtuns, são de outra etnia, e não temos nada a ver com eles” explicou um dos agricultores. O Afeganistão é isto, pelo que é muito redutor, e populista (tanto à Esquerda como à Direita) meter toda a gente no mesmo saco.
Estes muçulmanos xiitas estavam há três décadas a combater aqueles que agora os governam. Há duas décadas também o faziam, tal como há apenas cinco anos. E as feridas ainda estão muito abertas nas suas dolorosas memórias. Olhava para esses homens e imaginava tudo pelo que já devem ter passado, mas a vida é como é, e tudo tem de continuar, tal como as colheitas que são o seu sustento. (continua)

