Trinta e três segundos
Trinta e três segundos. Experimente contá-los, imaginando que está fechado num veículo descontrolado. Que percebe o perigo e não encontra saída. Que pensa nos filhos, em quem ficou em casa, no que ainda tinha para fazer.
Não sabemos o que sentiu cada passageiro do Elevador da Glória. Por isso impressiona que a brevidade do acidente seja alegada para diminuir a compensação pelo sofrimento de uma vítima mortal. Segundo as notícias, a Fidelidade argumentou que esse sofrimento, embora pudesse ter sido intenso, durou menos de um minuto. A duração pode ser ponderada na avaliação de um dano. Mas sofrimento breve não significa sofrimento pequeno. Que unidade mede o terror de perceber que se vai morrer? Um cronómetro regista o tempo, não mede a experiência de quem o viveu. A Fidelidade esclareceu que não se recusa a indemnizar, apresentou até uma proposta de várias centenas de milhares de euros e ainda lamentou expressões utilizadas no processo judicial. Discutir valores é legítimo. Isso não dispensa o cuidado com os argumentos.
Mais perturbadora é a ideia, também noticiada, de que a utilização habitual do transporte deveria trazer consigo o conhecimento dos riscos, que são a razão da existência de seguros. Que deveria o passageiro conhecer? O estado dos cabos ou da manutenção? Os relatórios de inspeção? Quando compramos um bilhete, confiamos que alguém verificou aquilo que não podemos verificar. Se havia sinais de perigo conhecidos, importa apurar quem os conhecia e o que fez. Ser passageiro não pode implicar fiscalizar a infraestrutura. A tragédia ferroviária de 28 de Outubro, em Espanha, voltou a confrontar-nos com essa confiança. Dezenas de pessoas morreram numa simples deslocação. Sem antecipar responsabilidades nem equiparar acidentes diferentes, a exigência é comum: chegar ao destino em segurança.
Pensei nisso em Coimbra. Os cruzamentos do Metrobus e a proximidade entre veículos e peões deixaram-me inquieto. Uma impressão não é uma avaliação técnica. Mas existem factos que justificam perguntas. Em Junho, o presidente da Metro Mondego confirmou cinco acidentes rodoviários e um atropelamento entre Janeiro e Maio. Atribuiu-os a falhas humanas, afirmando que o sistema não falhara. A empresa analisava, contudo, alterações nos tempos dos semáforos, repetição de sinais e marcações amarelas nos atravessamentos.
Se é possível melhorar a protecção dos cruzamentos, é legítimo perguntar se a configuração existente é suficiente. A segurança também se mede pela capacidade de prevenir erros humanos e limitar as suas consequências. A empresa confirmou ainda 13 casos de circulação indevida no canal (comunicados às autoridades). Há queixas de sobrelotação e dificuldades de embarque. Em Setembro, o Diário As Beiras noticiou passageiros acumulados em Coimbra-B e denúncias de incumprimento dos intervalos anunciados. Isto não prova defeitos dos veículos nem permite declarar o Metrobus inseguro. Exige explicações, acompanhamento e correcções verificáveis. Coimbra precisa de mobilidade moderna e segura, de conhecer as avaliações de segurança e de saber quem responde quando algo corre mal.
A segurança merece escrutínio antes da tragédia. Trinta e três segundos podem parecer pouco a quem os conta sentado a uma secretária. Para quem percebe que talvez não regressa a casa, podem conter tudo o que lhe resta.

