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Mais do que um filme

20 de outubro de 2026 às 19 h00

O Veredito Social estreou-se em Portugal a 8 de outubro de 2026. A sequela de A Rede Social, filme sobre a origem de Mark Zuckerberg, desenvolve o escândalo Facebook Files, com a assinatura do argumentista-virado-realizador Aaron Sorkin.

Sempre tive um carinho especial e, devo admitir, perverso pela forma da arte em detrimento do seu conteúdo. Porém, desta vez o contrário fala mais alto, visto que O Veredito Social é um filme realizado por um dos guionistas mais perspicazes da atualidade. Ao mesmo tempo, o mestre da caneta Aaron Sorkin apresenta algumas limitações no que toca a estar à frente de um filme. Assim sendo, fica difícil estabelecer comparações com David Fincher, que tinha realizado o trabalho anterior a esta sequela, A Rede Social, uma obra de arte que acaba por ser mais do que um filme, dado o arcabouço do seu assunto que, sendo até maior do que o seu criador, Mark Zuckerberg, é bem maior do que qualquer um de nós, utilizadores.

Do que conheço, Fincher é o realizador vivo mais entendido da sétima arte, uma espécie de livro de estilo andante com todas as regras na ponta do braço e, portanto, o mais profundo conhecedor das formas como as quebrar. Aaron Sorkin, por sua vez, não sendo dotado destas capacidades, apresenta, como sempre, uma mestria invejável na maneira de agarrar em assuntos complicados e torná-los legíveis para o grande público.

 

Se em A Rede Social temos o início da vida e carreira de Zuckerberg, em O Veredito Social encontramo-lo (encarnado por Jeremy Strong) no topo do mundo; talvez por isso ele apareça tão pouco no filme, opção que lhe confere um estatuto de deus.

Agora, a sua figura surge na tomada de decisões que vão afetar o algoritmo da arena de opinião que é o Facebook, bem como os do Instagram e do WhatsApp, plataformas entretanto adquiridas pela multinacional. Na ótica do CEO, o Facebook é um quadro de cortiça onde as pessoas podem afixar as suas ideias; Zuckerberg, certo de que vai ser criticado por censurar e de que vai ser criticado por não censurar, prefere não o fazer.

A problemática da revelação que leva a tudo isto surge, cerca de dois anos antes, pela falta do sentimento de pertença no ambiente de trabalho nos escritórios do Facebook por parte da engenheira Frances Haugen (Mikey Madison). Acrescentando alguma consciência cívica suscitada por se cruzar com problemas pessoais de jovens causados pela rede social, estas preocupações levam-na a aderir à conversação com Jeff Horowitz (Jeremy Allen White), um jornalista de investigação que tenta aceder aos membros da equipa de integridade civil do Facebook em busca da nova verdade. Sendo a única a dar a voz, ainda que primeiro de forma oficiosa, Frances torna-se na whistleblower que terá levado a empresa Facebook a ter mudado de identidade, alterando o nome para Meta.

 

 “O Veredito Social, peneirado pela escrita inteligente de Aaron Sorkin, troca por miúdos um assunto delicado mas que a todos diz respeito”

 

O Veredito Social vai, de forma cronológica, revelando indícios da informação que a administração do Facebook detinha enquanto permanecia negligente para com os indivíduos: as consequências desta permissibilidade são, por exemplo, a polarização dos utilizadores através da radicalização política, a dispersão de ódio pelo discurso e o consequente efeito catastrófico na sua auto-estima, em particular a dos mais jovens.

A tinta com que o caso Facebook Files foi escrito na história ainda está demasiado fresca. Apesar disso, o mundo de hoje parece acontecer a correr, a uma velocidade duplicada ou triplicada: as vivências foram transpostas para os ecrãs dos nossos smartphones, que vieram deformar a noção de tempo, dando-nos a impressão de que estamos sempre atrasados e longe das variadas verdades que cada um nos pode descortinar.

Tirando duas ou três exceções que servirão para decorar O Veredito Social enquanto obra narrativa e apesar de tudo de entretenimento, o filme, peneirado pela escrita inteligente de Aaron Sorkin, troca por miúdos um assunto delicado mas que a todos diz respeito. Não é a obra de arte que Fincher faria, mas o seu tema continua maior do que qualquer filme: são as vidas que vivemos.

Se seria mais completo informarmo-nos através da documentação publicada pelo The Wall Street Journal ao invés de ver o resumo em forma de filme de duas horas? É evidente que sim.

Se seria tão divertido? Reservo as minhas dúvidas.

 

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