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Quando a tecnologia esconde as ideias

15 de outubro de 2026 às 10 h15

Assisto a uma apresentação num evento público e a forma como a informação é apresentada traz-me à memória o momento em que, no início da década de 90, usei uma das primeiras versões do PowerPoint para criar os meus primeiros slides em formato digital para projeção. À época, o deslumbramento com efeitos, transições, animações tornava a apresentação uma experiência mais distrativa do que informativa, com maior foco na forma do que no conteúdo. E assim foi durante muitos anos, até que alguma maturidade foi chegando à utilização desta e de outras ferramentas semelhantes.

Mais de 30 anos depois, a IA democratizou a criação de apresentações e trouxe consigo, nestes últimos anos, uma nova forma de apresentar conteúdos. A facilidade de geração de texto, imagem, animações, nem sempre com base em prompts suficientemente elaborados, tornou-as estranhamente semelhantes: os mesmos títulos, as mesmas imagens (perfeitas), a mesma organização (previsível) e, por vezes, a mesma ausência de identidade do autor, o que, de certa forma, banaliza o conteúdo. A tecnologia a ser o elemento visível.

A utilização da tecnologia em processos criativos é, em muitos aspetos, associada à perda de criatividade e de identidade nas ideias, nos projetos. Mas aqui a questão que se coloca é: como pode um criador, um empreendedor, não utilizar tecnologia nos dias de hoje?

O desenvolvimento de uma ideia e, sobretudo, a necessidade de a fazer crescer têm, na tecnologia, um dos seus melhores aliados. Um dos maiores contributos pode acontecer mesmo antes da ideia estar concluída. Ferramentas de modelação (3D, etc.) permitem desenhar, simular, testar e corrigir conceitos de produtos e processos. A digitalização permitiu que uma nova ideia pudesse assumir vários formatos e chegar a públicos distantes. E tornar-se, por exemplo, numa experiência interativa ou imersiva, algo que as novas gerações apreciam – a realidade aumentada e a realidade virtual permitem a criação deste tipo de experiências. A impressão 3D permite criar protótipos que servem para testar se conseguimos construir um produto.

Tal como outro conceito, o do “pretótipo” permite testar se devemos ou não construir esse produto – algo que pode ser usado criando, por exemplo, uma página no website anunciando para breve um produto que ainda não existe e contando o número de cliques ou inscrições para medir o alcance da ideia. A tecnologia permite assim ouvir utilizadores e recolher evidências antes de comprometer investimentos elevados: mais do que perguntar se conseguimos construir uma solução, devemos perguntar se alguém a quer mesmo usar. Digitalizar não tem de significar tornar tudo igual, mas sim criar outras formas para a mesma identidade. E acrescenta algo fundamental: torna o potencial impacto visível, permitindo conhecer o alcance, o envolvimento e os padrões de utilização e, com isso, demonstrar resultados a parceiros, financiadores e outros stakeholders.

No fim, a melhor tecnologia não é a mais visível. É, antes, a que desaparece aos olhos do público, ao mesmo tempo que melhora a experiência, alarga o acesso e liberta tempo para criar. A tecnologia não tem de substituir o gesto criativo. Pode, pelo contrário, ampliar esse gesto. A questão decisiva não é saber se devemos usar tecnologia, mas sim não a tornar num fim em si mesma.

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