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Cientismo e outros males

13 de outubro de 2026 às 10 h45

Darwin publicou a sua “A Origem das Espécies” em 1859, relatando as suas extraordinárias observações e descobertas e propondo a alteração das espécies como hipótese interpretativa. As décadas que se seguiram e os extraordinários desenvolvimentos na física, na química e na biologia durante o século XX permitiram compreender muitos dos mecanismos microscópicos, moleculares, bioquímicos e genéticos em que assentam estas alterações. A evolução das espécies faz hoje parte daquele “núcleo duro” do património científico a que, ainda que sujeito a revisões de pormenor, se aplicam as palavras de Steven Weinberg sobre as equações de Maxwell: “Enquanto houver cientistas, continuaremos a ensinar a eletrodinâmica de Maxwell.”

Os desenvolvimentos da genética ao longo dos séculos XIX e XX permitiram compreender o impacto da hereditariedade nas características morfológicas e fisiológicas dos seres vivos, incluindo os humanos, bem como colocar a pergunta sobre o impacto nas características mais complexas da humanidade, das mentais às morais, das sociológicas às políticas. Dominavam então as ideias positivistas, que almejavam reproduzir em todo o conhecimento a descrição geométrica rigorosa alcançada por Newton para a descrição básica do movimento dos corpos.

Esta atitude levou então à formulação de várias hipóteses e modelos de incontestável racionalidade mas infelizmente mais devedores dos preconceitos dos seus proponentes do que da metodologia newtoniana. Entre essas teorias agora desacreditadas, conta-se a eugenia, proposta pelo ilustre cientista Francis Galton (primo de Darwin), que assentava na ideia de melhorar a humanidade através de um controlo adequado da reprodução humana.

Estas teorias foram abraçadas com imenso entusiasmo no início do século XX, juntamente com as mais antigas teorias “científicas” do racismo e com os modelos de darwinismo social (que tentava aplicar os mecanismos da evolução e da sobrevivência dos mais adaptados à sociologia).

Na sua oração de sapiência proferida em Outubro de 1934 na Sala dos Capelos de Coimbra, poucos dias antes da sua tomada de posse como Ministro da Instrução Pública, o reputado antropólogo Eusébio Tamagnini não deixava de citar generosamente o socialista Pearson, discípulo de Galton, mas terminava louvando o governo alemão, que “decretou uma política administrativa francamente baseada e determinada por princípios eugénicos”, dando como incontestável a seguinte afirmação de Hitler: “Numa época em que as raças se estão intoxicando a si próprias, o Estado que devote os seus cuidados aos seus melhores elementos étnicos dominará um dia o Mundo.” Não consta que tenha havido então qualquer comoção na Sala dos Capelos.

E, no entanto, conforme aponta Chesterton logo no início do seu livro “Eugenia e outros males”, de 1922, “a coisa mais sábia no mundo é gritar antes de ser magoado. Não serve de nada gritar depois de ser atingido, sobretudo se o golpe é mortal. (…) Não é resposta dizer, com um otimismo distante, que se trata apenas de ideias no ar. Um golpe de machado só pode ser defendido enquanto se encontra no ar.”

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